Sabrina Noivas 10
The Best-Made Plans

A noiva disse "sim". O noivo disse "no". 
O casamento se realizou dez anos depois
Penn Caldwell estava de volta, depois de 10 anos de perambulaes pelo mundo.O charmoso, divertido e fascinante Penn Caldwell...O homem que fora o amor de Kaitlyn Ross, quando garota, mas que a abandonara. Mesmo desiludida, Kaitlyn construra uma nova vida. Era agora uma bem-sucedida consultora na rea de organizao de cerimnias e festas de casamento. E estava noiva de 1 outro homem, to diferente de Penn Caldwell como o dia da noite. Mas o obstinado, o audacioso, o enlouquecedor Penn Caldwell estava de volta... Disposto a se casar com Kaitlyn e faz-la esquecer-se das tristezas do passado!

Digitalizao e correo: Nina



 


Srie Springhill:
1. Sell Me a Dream (1986)
2. Once And For Always (1989)
3. An Uncommon Affair (1990)
4. The Best Made Plans (1992) - 
Sabrina Noivas 010 - Nossos Melhores Planos
5. Family Secrets (1994)




Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1994
Gnero: Romance Comtemporneo
Estado da Obra: Corrigida






CAPITULO I

Pequenos rudos se faziam ouvir pela igreja: os suaves acordes de uma cano de amor ao rgo, os murmrios abafados da congregao, uma ou outra tosse ocasional e os movimentos dos retardatrios ao se sentarem.
Sob os sons superficiais, porm, havia um clima de expectativa entre todos os presentes, que Kaitlyn aprendera a reconhecer.
No incio o fato a irritara. Era quase como se os convidados estivessem esperando que um dos noivos desistisse.
Mais tarde, descobrira que os ltimos momentos, antes da entrada da noiva, eram sempre assim.
Colocou-se silenciosamente em um ngulo escondido do altar, onde quase ningum poderia v-la, a fim de se certificar de que estava tudo em ordem.
No era sua inteno se exibir,  claro, e muito menos se sobressair  noiva, por esse motivo escolhera um vestido mar-rom-caf bem simples e um colar de apenas uma volta.
Aquele era o lugar perfeito para se observar, sem ser observada, e ela aproveitou para olhar todo o interior da igreja de St. Matthew. As fitas de cetim que envolviam os bancos estavam bem passadas. As velas queimavam solenemente. As flores estavam viosas sobre os vasos de colunas, em tons de pssego.
Elff se sentia aliviada por ter conseguido mudar a opinio de Angela e especialmente da me de Angela, no sentido de desistirem de tons escuros na ornamentao. Afinal estavam em pleno vero!
Terminada a inspeo, Kaitlyn deu uma espiada na sacristia para se certificar de que o noivo continuava l. Satisfeita, desceu os degraus e caminhou por entre as naves, onde cumprimentou vrios amigos e clientes, inclusive Audrey Ross, sua me, que lhe enviou um sutil sinal positivo com o dedo.
Para encoraj-la?, Kaitlyn pestanejou, surpresa. Para qu? Aquele casamento seria uma beleza. O que poderia dar errado quela altura? De qualquer forma, fora um gesto simptico, quer fosse necessrio ou no.
Estava quase chegando ao fundo da igreja quando o viu.
Ele estava sentado no ltimo banco, como se tivesse resolvido participar da cerimnia no ltimo momento, sem querer ser visto. S que sua presena no passara despercebida, ao menos por duas mulheres. Ela agora entendia por que a me lhe enviara o pequeno sinal de apoio.
No deveria ter se surpreendido tanto, reprovou-se. Havia algo de anormal em Penn querer assistir ao casamento de sua prima?
Penn Caldwell. O fascinante, engraado e charmoso Penn Caid-well. O tambm obstinado e egosta Penn Caldwell, que nunca conseguiria se prender a um nico lugar e a uma nica mulher.
Dez anos haviam se passado desde que partira pelo mundo.
O mais estranho, Kaitlyn cogitou, era que qualquer desconhecido diria, ao observ-lo, que estava diante de um advogado ou de um mdico, ou ainda de um engenheiro mecnico, conforme fora o sonho do pai. Ele parecia firme, competente e confivel em seu terno cinza plido, talhado com perfeio. Apenas o intenso bronzeado de sua pele no combinava com sua imagem profissional.
Ningum jamais diria que se parecia com um faxineiro, um voluntrio social, um motorista de txi, um lavador de pratos, ou ainda um instrutor de surf, posies que assumira no decorrer daquele tempo.
No que ele houvesse enviado notcias a Kaitlyn, mas em uma cidade do tamanho de Springhill, histrias como aquelas se espalhavam como o vento. Principalmente quando o protagonista era algum como Penn Caldwell, um jovem promissor, que dera uma guinada em sua vida aps a tragdia que se abatera sobre sua famlia.
Penn ergueu os olhos cinzentos, como se tivesse sido atrado pelos dela. Kaitlyn os sustentou por um momento. Em seguida, com intenso esforo, continuou caminhando, ansiosa por chegar ao fundo da igreja, e verificar se a cerimnia j poderia ser iniciada.
O que no esperava era que bem perto do ltimo banco, exa-tamente onde Penn estava sentado, seu salto fosse se prender a uma reentrncia do piso, e quebrar com um estalido.
Metade da congregao se voltou para o som. Um brao surgiu  sua frente e ela o segurou at recuperar o equilbrio. Agradeceu e se afastou depressa, antes que Penn pudesse perceber o rubor que havia tingido seu rosto.
O organista comeou a tocar uma outra msica. No mesmo instante a me de Angela abriu a porta lateral da igreja e perguntou se aquele era o sinal para que se dirigisse ao altar.
 Calma, sra. March.  Kaitlyn lhe deu uma palmadinha no brao.  Deixe tudo por minha conta.
Francamente, Kaitlyn pensou, se as pessoas no tivessem algum que as orientasse em ocasies como aquela, como seria? Antes de haver profissionais especializados em organizao de festas e casamentos, como as coisas teriam sido?
Por ltimo examinou a ante-sala, onde o fotgrafo preparava Angela para mais uma pose com as damas de honra.
Assim que a foto foi tirada, Kaitlyn colocou as damas de honra em suas respectivas posies, fez um sinal  organista e contou os segundos para o incio da cerimnia.
Esperava fervorosamente que tudo desse certo.
S lhe faltava uma das garotas pisar fora do tapete branco, tropear como acabara de acontecer com ela, e Penn no estar l para segur-la.
Os msculos de seu brao haviam lhe parecido to fortes como cabos de ao. Uma confirmao, sem dvida, aos boatos que circulavam pela cidade, de que ele, mais uma vez, andava se dedicando a trabalhos que requeriam fora fsica.
A marcha nupcial estava chegando aos ltimos acordes, e a noiva e seu squito ao altar, quando Kaitlyn conseguiu deslizar para o lado de sua me.
Colocou uma das mos em seu ombro e deixou-se levar. Da ltima vez que ele a abraara... Pare com isso, ela se ordenou. Est tudo acabado.
	Meu nome no  Kitten.
	No me diga que se transformou em uma feminista radical, depois que fui embora.
	Claro que no.
	 verdade. Que comentrio tolo o meu. Uma feminista radical no estaria se dedicando a organizaes de casamentos.
O mais provvel  que estivesse empunhando um cartaz, na porta da igreja, protestando contra rituais to antigos e superados.
	Se o seu conceito sobre feminismo inclui definies contrrias aos casamentos, ento voc  mais radical do que eu, no acha?
Ele a fitou por um instante e se ps a rir.
	Suas unhas continuam afiadas. Mas, me diga, h tanta gente assim se casando, em Springhill, para justificar uma empresa de organizao?
	Parece que sim. No que eu j tenha conseguido montar uma empresa, como voc diz. Estou h apenas oito meses no negcio.
	Tambm organiza outros tipos de eventos como aniversrios?
	Tambm, mas o forte so os casamentos. Hoje em dia, as noivas geralmente trabalham at a vspera e no tem tempo para cuidar dos preparativos. Nem a famlia. Dessa forma, em vez de terem dores de cabea, todos aproveitam para se divertir.
	Graas a voc.
	Isso mesmo  ela afirmou, o cenho franzido diante do tom de voz que ele empregou.
	Deve ser um trabalho agradvel. Espero que continue con seguindo convencer seus clientes de que  indispensvel.
A ironia a perturbou.
	Por que no  franco de uma vez? No  o meu trabalho que voc considera desnecessrio, mas a instituio do casamento.
Alis, da forma que voc se sente com relao ao assunto, admiro-me que tenha aparecido na igreja.
	O casamento de Angela  o primeiro que assisto em anos.
	Talvez isso explique sua falta de cortesia em no ter se dado ao trabalho de responder ao convite.
Ele balanou a cabea.
	Eu no tive tempo de responder de tanto que o convite demorou a me encontrar.
Ela deveria ter imaginado. Penn continuava o mesmo. Para ele, a grama era sempre mais verde do outro lado da cerca.
Talvez no fosse assim, caso no tivesse vivenciado uma tragdia em famlia.
	Alm disso  ele continuou , no tenho nada contra o casamento de Angela.
	Claro.  Ela deu um sorriso irnico, para se arrepender no mesmo instante.
	No me diga que ainda guarda rancor por eu no ter me casado com voc.
	Lgico que no  el respondeu, seca.  Se eu tivesse  me casado com voc, agora estaria, provavelmente, viva e atrs das grades, em punio a t-lo assassinado.
A ideia no pareceu perturb-lo.
	Viu o quanto a poupei e a mim mesmo por no querer me casar?
Ela fingiu errar um passo, apenas para pis-lo com toda a sua fora.
	Desculpe, mas parece que estou muito cansada.
	Muito cansada para uma valsa? Voc? No acredito! Eu costumava adormecer, todas as noites, pensando que estava val
sando com voc.
Por um instante, Kaitlyn sentiu dificuldade em respirar.
	Isso acontecia quando eu estava sozinho na selva,  claro, e no tinha mais nada para fazer.
Dessa vez Penn antecipou o piso e conseguiu se desviar, com um sorriso maroto.
	A propsito, como est Springhill? O lugar me pareceu mudado. Quase me perdi esta manh.
Foi um alvio constatar que Penn no parecia interessado em continuar relembrando o passado. Ela certamente no queria. Nada
o faria voltar. Nem sequer um pedido de desculpa ajudaria. Como se Penn fosse de pedir desculpa por alguma coisa!
	Bairros inteiros parecem ter surgido depois que parti. E h uma placa de "vende-se" na frente da sua casa.
O corao de Kaitlyn quase parou de bater ao pensamento de que Penn passara diante de sua casa, naquela manh, depois de tanto tempo. As lembranas, portanto, deveriam ter sido importantes para ele.
Mas ela forou seu corao a voltar ao ritmo normal. A casa de sua famlia ficava em uma das ruas mais conhecidas da cidade, e qualquer um teria de passar por ela, aps meia hora de peram-bulaes.
	Depois da morte de papai, no ano passado...
A mo de Penn apertou momentaneamente a sua.
	Eu no sabia, Kaitlyn.

	No esperava que soubesse.  Ela se deteve abruptamente.
No poderia haver nada mais horrvel do que a compaixo de Penn.
	Sinto muito  ele murmurou.
	Obrigada. Ele sofreu muito e tambm minha me. Ela quis colocar a casa  venda, para mudar de ambiente e tentar se recuperar.
	E voc, Kitten? O que far?
A msica terminou e ela se desvencilhou do abrao, hesitante. Estavam se aproximando da beira da pista, quando um movimento em uma mesa lhe chamou a ateno.
	Eu no imaginava que voc tivesse mudado de ideia quanto a danar. Sinto muito, querida. Se eu soubesse...
A exausto que a invadiu, quase no permitiu que se virasse.
	Marcus. Voc j conhece Penn?
Ela no olhou no rosto do namorado, mas sentiu a tenso que o dominou. E isso era estranho. Que razo Marcus teria para se ressentir a uma simples apresentao?
	Penn, este  meu amigo Marcus Wainwright.
Penn apertou a mo de Marcus com firmeza.
	Muito prazer em conhec-lo. O que faz, Marcus?
	Sou o presidente da Turfmaster  o outro respondeu, surpreso.  Nossa empresa fabrica tratores e equipamentos de manuteno para campos de golfe.
Marcus continuava tenso e Kaitlyn continuava estranhando sua atitude. De repente, porm, notou que ele olhava insistentemente para sua mo e a de Penn. Ele no a soltara ainda! Mas ela logo resolveu o problema.
	E voc? O que faz?
	Sou autnomo.
	Que bela sada!  ela ironizou. 
	O que eu deveria responder, Kitten?  Penn deu de ombros.
	Kitten?  Marcus repetiu a contragosto.  O nome dela ...
	Sim, eu sei, mas sempre a chamei de Kitten.
Kaitlyn o encarou e, em seguida, percebeu que o melhor seria esclarecer a situao de uma vez.
	Eu disse que ele havia encontrado uma bela sada, Marcus, porque a famlia dele era dona da Turfmaster.
	Agora me lembro  Marcus comentou, como se, de repente,  estivesse em condies de classificar Penn.  O nome da empresa era outro, na poca...
O discurso foi interrompido quando um rapaz forte e alto se atirou contra Penn de braos abertos.
	Caldwell, criatura misteriosa, todos ns pensamos que havia cado do mapa! Faz um ano que ningum sabe de voc!
Penn retribuiu o abrao.
	No recebeu meus postais de Caracas? Eu mesmo bati as fotos e mandei imprimi-las.
	Como estou contente em v-lo! Vai ficar por aqui por uns tempos, no? Ao menos por uma semana? Daqui a sete dias serei eu o noivo e gostaria que fosse meu padrinho.
Penn lhe deu uma palmadinha nas costas.
	Quer dizer que tambm recebeu a picada fatal, amigo?
Kaitlyn achou por bem interromper a conversa.
	Voc j tem um padrinho, Karl.
	Meu irmo. Tenho certeza de que ele compreender.  O rapaz colocou um brao ao redor dos ombros de Penn.  Eu
prs e contras, Kaitlyn se lembrou. Na maior parte do tempo adorava o que fazia. Nos fins de noite apenas, quando o cansao a dominava, ela, s vezes, se arrependia.
O casamento eventualmente chegou ao fim; os noivos se foram, o pessoal do bufe recolheu seus apetrechos e desapareceu, e tudo o que sobrou foi a decorao.
	Eu a seguirei at sua casa  Marcus se ofereceu, conforme Kaitlyn recolhia o livro dos convidados e um par de sandlias douradas que algum esquecera na toalete. Como as pessoas tinham a capacidade de esquecer seus prprios sapatos, ela no sabia! , para ter certeza de que chegar bem.
A gentileza de Marcus a enterneceu. Era reconfortante saber que algum se preocupava com sua segurana e com seu bem-estar, mesmo que Springhill no fosse exatamente uma Nova York.
Mas ele no se limitou a segui-la. Assim que Kaitlyn colocou o carro na garagem, ele saltou do Mercedes.
	Marcus,  muito tarde e eu estou exausta  ela resmungou, sem se importar em parecer rude.
	No era minha inteno entrar. Afinal sua me j deve ter se recolhido. Mas eu queria lhe falar por um minuto. Parece que no temos tido muito tempo para isso.
Ela no pde negar. Andava sempre ocupada, principalmente  noite, devido s longas reunies com clientes. E, quando estava livre, era Marcus quem se ocupava. A Turfmaster havia crescido muito. No era mais a pequena empresa regional fundada pelo pai de Penn.
Ela seguiu at o terrao e se sentou no velho banco de balano, cujas correntes se prendiam ao teto. Sufocou um bocejo.
	Talvez seja um egosmo de minha parte obrig-la a falar comigo neste exato momento, mas eu preciso. Voc me apresentou como seu amigo, esta noite, mas eu quero ser mais do que isso.
Eu quero me casar com voc.
Todo o cansao desapareceu em um piscar de olhos. Ela no se lembrava de ter sido acordada de uma forma mais dramtica antes, exceto aquela vez em que adormecera, de biquini, s margens do lago, e Penn colocara um cubo de gelo em sua barriga.
Aquele tipo de pensamento jamais deveria ter lhe ocorrido ao ser pedida em casamento. No que estivesse surpresa com o pedido, depois de estar saindo com Marcus h cerca de um ano. Mas...
Ela estava quase aceitando a proposta e dizendo que casar-se com ele era tudo o que queria. No entanto, foi com a voz trmula que respondeu:
  uma deciso to importante, Marcus, que eu preciso de um tempo para pensar.

CAPITULO II

Marcus ficou to perplexo que quase caiu do ba-Jano. Kaitlyn no o culpou por isso. Ela mesma mal podia acreditar no que acabara de dizer. No vinha se encontrando com mais ningum nos ltimos seis meses e j havia antecipado que, mais cedo ou mais tarde, o namorado lhe proporia casamento.
	Tem certeza de que sua resposta no se prende ao velho costume de qife as donzelas deveriam se mostrar tmidas?  Ele tentou brincar.
	Seu pedido no foi nenhuma surpresa. Ainda assim significa um passo muito srio e eu preciso refletir. Gosto de voc, mas quanto a tornar nosso relacionamento permanente...
Voc est se perdendo, Kaitlyn se alertou. J passou da falta de considerao para a falta de educao!
	Por favor, diga que me entende.  apenas uma questo de eu ter certeza, para o bem de ns dois.
	 claro que entendo  Marcus respondeu, tenso.  A culpa  minha por no ter aguardado um momento mais oportuno.
Nos vemos amanh?
Ela sorriu e estava prestes a fazer um sinal afirmativo com a cabea, quando se lembrou:
	Preciso estar no clube, amanh cedo, para supervisionar a retirada das mesas e cadeiras alugadas, e tambm a limpeza.
	O que no levar o dia todo, sem dvida.  Ele se levantou.  Eu ligarei.
Kaitlyn sentia-se to exausta que nem reagiu, de imediato, ao modo brusco com que Marcus se dirigiu ao carro.
	Vai embora sem me dar um beijo de boa-noite?
	Pensei que no estivesse a fim.
	No seja bobo  ela sussurrou, a cabea apoiada em um pilar. Ele se deteve. Em seguida voltou at a varanda e a beijou com o mesmo entusiasmo de sempre. Ou havia hesitao, e um toque de insegurana no gesto?
Ela permaneceu na mesma posio at o carro desaparecer de vista.
Era mais do que hora de se deitar, pensou. Com um suspiro, entretanto, voltou a se sentar no balano e a se acomodar entre as almofadas. Poderia dormir ali, caso dobrasse os joelhos.
	Como pde ser to tola!  reprovou-se.  Como pde reagir daquela forma a uma proposta que j estava esperando?
Gostava de Marcus e ele j havia confessado que tambm gostava muito dela. Se algum a tivesse avisado, aquela noite, que Marcus a amava e que tinha inteno de pedi-la em casamento, ela teria se sentido feliz, e no surpresa. Ningum, alis, em Springhill, teria se surpreendido.
Qual era o problema, ento?
J havia acontecido, uma vez, de todos em Springhill esperarem por esse tipo de coisa. S que com um homem diferente. E o desapontamento e a compaixo, com que eles a cercaram, fora quase to difcil de lidar quanto a rejeio de Penn. Seria possvel que a velha ferida ainda no estivesse completamente cicatrizada? Seria possvel que no se permitira amar verdadeiramente Marcus, por que, no fundo, ainda pensava em Penn?
Era duplamente tola, se fosse essa a resposta!
A brisa soprou sobre os arbustos do jardim e brincou com uma mecha de seus cabelos castanhos-dourados. A brisa quente das noites de junho sempre a fazia lembrar do ltimo doce encontro, dez anos atrs...
Faltavam apenas duas semanas para o trmino das aulas, quando ela se formaria no colgio. Penn voltara para casa, para passar as frias, depois de cursar o primeiro ano da faculdade.
Era um sbado de manh e ela estava sentada no balano, no terrao de sua casa, com um livro na mo, tentando se concentrar na leitura de umas poesias, quando Penn assobiou da calada. Seu corao quase transbordou de felicidade, saudade e amor. Fora difcil passar um ano inteiro longe dele. Mas a espera havia terminado. No outono ela tambm iria para a universidade, e, ento, ficariam sempre juntos. Ainda no haviam falado a esse respeito, mas na mente de Kaitlyn tudo estava muito claro.
No poderia ter imaginado que o longo e maravilhoso vero de sua juventude estava quase terminando.
m um dia quente de julho, ento, o mundo de Penn desmoronou, levando o de Kaitlyn consigo, embora ela s viesse a saber disso depois de algumas semanas.
Estava sendo submetida a uma restaurao, quando seu dentista comentou:
	Foi terrvel o que aconteceu com os Caldwells, no?
Suas mandbulas se contraram, obrigando o dentista a interromper o tratamento.
	O que est dizendo? Pelo que sei, os Caldwells foram pescar no Lago Superior.
Ela ainda sentia a mesma fraqueza invadi-la de quando o dentista repetira o que seu ltimo cliente lhe contara sobre o acidente.
Uma lancha, em alta velocidade, dirigida por um homem com-pletamente bbado, cortara em dois o barco em que a famlia Caldwell pescava.
	No pode ser verdade  ela sussurrara.  Voc sabe o quanto as histrias so aumentadas, quando passam de pessoa para pessoa.
S que era verdade e a cidade inteira no falou sobre outra coisa at o final daquela noite.
Os pais de Penn, que estavam sob o deque, tiveram morte instantnea. Penn, que no momento da coliso estava ao leme, foi atirado para fora do barco e teria se afogado, no fosse uma testemunha salv-lo.
Ferido e cheio de ataduras, foi ele quem trouxe os pais de volta para casa e quem providenciou o funeral. Durante todo o tempo ningum ouviu uma palavra sua? Era o nico sobrevivente no s de um acidente horrvel, como tambm de uma famlia.
O povo de Springhill comentara que ele era uma criatura muito forte para suportar uma tragdia como aquela, sem entrar em desespero. Mais tarde mudaram de opinio,  claro, e anunciaram que sua atitude calma e passiva demais no fora natural.
Vrias semanas se passaram at que o inevitvel aconteceu.
A porta de tela foi aberta com um estalido. Audrey Ross espiou por uma fresta e perguntou:
	 voc, Kaitlyn?
	Sim, mame.  Kaitlyn se sentou, e esfregou os braos sem perceber, ainda trmula devido s lembranas.
Audrey saiu para o terrao, amarrando o penhoar na cintura.
	Est sozinha? Pensei ter ouvido Penn. Ele a trouxe para casa?
	No. Foi Marcus quem me trouxe.
	Oh, sim. Naturalmente.  A me bocejou.  Eu deveria estar semi-adormecida e o inconsciente me fez pensar nas inmeras noites em que voc e Penn ficavam sentados, aqui, at de madrugada. Seu pai costumava vir perguntar as horas a Penn, e ele sempre o informava com muita delicadeza.
	Nunca sequer imaginou que aquela era uma dica para que fosse embora  Kaitlyn concluiu.
Audrey sorriu.
	Devo estar me tornando uma velha sentimental. Stephanie me contou, esta noite, que recebeu uma oferta pela casa. Ela a trar para mim amanh de manh.
	Mas amanh  domingo! Essa mulher nunca descansa?
	Ela disse que os compradores no so desta cidade.  Audrey tornou a bocejar.  Espero que a oferta seja boa. Ser um alvio resolver este assunto de uma vez. O jardim est precisando de cuidados e o pequeno Benton viajou.
	Outra vez?
Foi para um acampamento, eu acho. E eu no saberei a quem recorrer, caso no consiga passar a casa para a frente, antes do final da prxima semana. Nos dias atuais no se encontra mais rapazes, em frias, dispostos a pequenos servios, como nos tempos em que voc estava no colgio.
	E que se contentavam com um pedao de torta de ma ou um trocado.
	Por falar em rapazes...
	Quer que eu pergunte a Marcus se ele tem algum tipo de equipamento que possa emprestar e que corte bem a grama de nosso jardim?  Kaitlyn riu.
	No, no era em Marcus que eu estava pensando, mas em Penn.
Kaitlyn mordeu o lbio.
	Esse tempo j passou, mame.
Por um momento, imaginou que a me no tivesse ouvido. Finalmente, ela respondeu:
	Sim, eu sei, querida. Mas voc no acha que agora... Eu sempre gostei muito de Penn.
	Esquea Penn, mame, eu mesma tentarei encontrar um jeito de cuidar do jardim. A propsito, por que no vai se deitar?
Precisar estar em forma, amanh, para decidir sobre a oferta.
Mas a me no parecia disposta a deix-la antes de conseguir o que se propusera.
	Kaitlyn, o que foi que realmente aconteceu entre voc e Penn? Se foi alguma bobagem que ele lhe fez, lembre-se do ter rvel choque que sofreu.
	Eu nunca esqueci, me. E no foi uma bobagem. De qual quer forma,  tarde demais para falarmos sobre isso.
- Nunca  tarde demais, querida. Ser que voc no se sentiria melhor se ao menos me contasse?
A perspectiva provocou um arrepio em Kaitlyn. Contar  sua me todos aqueles detalhes embaraosos, depois de dez anos? Todos os detalhes que trancara dentro de si mesma, com tanto cuidado?
	E muito tarde. Melhor irmos dormir  repetiu, firme.
 Voc  quem sabe. Mas se mudar de ideia...
Kaitlyn fez um sinal afirmativo com a cabea. Assim que a me voltou para dentro da casa, no entanto, resmungou:
	No, obrigada. Eu no mudarei de ideia.
Mas no era apenas por vergonha que ela no queria compartilhar o acontecido. Sua me sempre adorara Penn. De que adiantaria mago-la? De que adiantaria destruir as boas recordaes que conservava?
Era uma manh de domingo perfeita e ensolarada. O campo de golfe estava repleto, e as quadras e piscinas lotadas, quando Kaitlyn saiu do clube. O equipamento alugado j se encontrava a caminho do fornecedor e a florista, tambm, j havia retirado todos os arranjos de flores que haviam sobrado do casamento.
Podia virar mais uma pgina do seu livro de registros de festas e se cumprimentar pelo sucesso obtido.
Agora teria um ou dois dias de merecido descanso e, em seguida, comearia a fazer os ltimos preparativos para o casamento de Sabrina Hart, que se realizaria no fina! da semana.
Quase riu consigo mesma. Descansar? Tensa como andava nas ltimas semanas? O melhor seria procurar a floricultura no dia seguinte e adiantar a encomenda do buque da noiva.
Aquele seria o maior casamento de toda a sua recente carreira, e ela estava contando com a possibilidade de divulgar seu nome no apenas em Springhill, mas tambm, e principalmente, em todo o estado. Se tudo desse certo, seiscentos convidados falariam sobre a festa. Se no desse...
O Jaguar preto de Stephanie Kendall estava estacionado na frente da casa, obrigando-a a deixar o seu carro na rua. Caminhou lentamente pela calada. No tinha pressa alguma de entrar. Das duas, uma. Ou a oferta seria satisfatria, ou no seria. E a deciso no lhe caberia.
Mesmo que aquele no fosse mais o seu lar, ainda o considerava assim, por ter crescido entre aquelas paredes. E a certeza de ter de abandon-lo para sempre, no deixava de lhe provocar um aperto no corao.
Havia voltado para a velha casa devido a necessidade de ajudar a me, quando o pai adoecera. E ali permanecera depois de sua morte porque sua me no conseguira enfrentar a perda e a solido.
O tempo havia passado, porm. Audrey j estava comeando a superar o trauma e Kaitlyn estava ansiosa por voltar a viver sozinha.
Deteve-se ao p da escada e ergueu os olhos para a casa branca com janelas pintadas de azul-escuro. Era grande, quadrada, slida e despretensiosa. Uma das muitas construes realizadas pelos comerciantes de classe mdia, na virada do sculo. Tambm como as outras casas dessa poca precisava de reparos constantes. Algo que Kaitlyn s notara depois da doena do pai e da dificuldade da me em arrumar outras pessoas que os fizessem.
Na cozinha, Audrey estava servindo uma xcara de caf a uma linda ruiva, com uma pasta a seu lado e diversos papis espalhados.
	Pelo jeito no houve negcio, no ?  Kaitlyn se dirigiu a Stephanie.
	Claro que houve. Ou melhor, haver, assim que Audrey assinar a venda.
	O que a est impedindo, ento, mame? O preo?
	No exatamente. A oferta  boa. Mas os interessados querem tomar posse da casa em duas semanas  a me respondeu, enquanto servia uma xcara tambm  filha.
	Por que tanta pressa?  Kaitlyn quis saber.
	Concordo que o prazo  mais curto do que o usual, mas os compradores j venderam a casa onde moram. Trata-se de um jovem casal com dois filhos pequenos e um terceiro a caminho.
Ele foi contratado por uma empresa de Springhiil e deve comear a trabalhar daqui a trs semanas.
	 impossvel  Audrey afirmou.  No darei conta de empacotar tudo em to pouco tempo. Como se no bastassem as roupas e qbjetos em uso, ainda tenho um sto lotado de coisas.
S poderemos fechar o negcio se eles esperarem mais um pouco.
	Eu direi a eles  Stephanie respondeu , mas, para ser franca, no acredito que concordaro em prolongar o prazo. H outras casas  venda. Embora eles tenham preferido a sua, sabem que as outras esto disponveis. Obrigada pelo caf. Assim que eu tiver uma resposta, entrarei em contato.
Audrey respirou fundo.
 No sei o que mais eu poderia fazer. Se ao menos j tivesse para onde ir...
	Espere um minuto.  Kaitlyn puxou uma cadeira e se sentou.  No vamos nos precipitar. Voc disse que a oferta era boa, certo, Stephanie?
	 a primeira que recebo, em que os interessados no tentam regatear. Sabem que esto impondo um prazo curto demais, e esto dispostos a pagar por isso.
	Acha que ainda pode surgir algum preparado para cobrir a oferta?  Kaitlyn indagou.
	 possvel, mas no muito provvel. O preo est um pouco alto, voc sabe.
Kaitlyn se virou para a me.
	Voc quer vender a casa, ou no?
	Claro que quero.
	Ento no perca esta oportunidade  a filha aconselhou.
	Mas como eu vou dar conta da mudana em duas semanas?!
	Talvez seja melhor assim. Eu ajudarei.
Quando?, Kaitlyn se perguntou. Entre o casamento de Sabrina Hart naquele fim de semana, e o de Laura McCarthy no outro...
Estavam no ms de junho, que droga! Por que todas as noivas do pas queriam se casar naquele ms?
Stephanie parecia ter lido sua mente.
	Ns daremos um jeito. Com o dinheiro extra, Audrey, voc poder deixar seus mveis em um bom depsito at se estabelecer em algum lugar.
Audrey olhou para a filha e depois para Stephanie.
	Onde eu assino?
Stephanie no se moveu.
	Se quiser pensar mais um pouco, eu pedirei que eles esperem at amanh.
Audrey negou.
	No, vocs tem razo. As duas. Eu preciso vender esta casa, e livrar-me das coisas continuaria a ser difcil mesmo que eu tivesse um ano de prazo. Eu estaria apenas adiando o problema.
Stephanie finalmente entregou os papis e em seguida guardou o original dentro de sua pasta. Kaitlyn a acompanhou at o carro.
	Obrigada por ter sido to paciente com minha me.
Eu entendo perfeitamente o que ela tem passado.  Stephanie sorriu.  Quando vendi minha primeira casa, chorei durante dias. Ol, Marcus.
Kaitlyn virou para trs a tempo de ver o namorado atravessando a rua.
	Eu estava voltando do clube de golfe quando vi seu carro 	ele explicou, depois dos cumprimentos.  Ento, resolvi parar e perguntar sobre os seus planos para hoje.
Kaitlyn ofereceu o rosto para ele beijar.
	No tinha feito nenhum, a no ser cortar a grama.
	Nesse caso, apaream em meu chal, em Sapphire Lake. Convidei nossa velha turma para uma reunio, esta noite.
No se tratava de um convite incomum. Afinal alguns dos amigos haviam permanecido em Springhill, e costumavam se ver com frequncia. Fosse h uma semana, e o convite no teria lhe causado qualquer emoo. Naquele dia, porm, ela poderia pensar em uma centena de razes que a impediriam de ir ao lago.
Na verdade era uma s. E ela declarara firmemente que no tinha nada para fazer.
Antes que pudesse recuperar a voz, Marcus respondeu:
	Ser divertido. Kaitlyn estava me contando, ontem mesmo, sobre os velhos tempos.
	Quer dizer que posso contar com vocs?  Stephanie sorriu.
	Ser como antes: cachorro quente e talvez um mergulho ao luar.
"Como antes". Era exatamente isso que Kaitlyn temia.
Marcus no tirou os olhos da estrada uma nica vez. Com tantas curvas era perigoso desviar a ateno.
	Quer dizer que vocs s tem duas semanas para encontrar uma nova moradia?
	Pior. Temos apenas duas semanas para encontrar duas novas moradias. Eu adoro minha me, mas no gostaria de continuar morando junto com ela.
	Ela sabe?
	Sim. Ns j discutimos a respeito antes de ela colocar a casa  venda. Estamos pensando em dois apartamentos.
	Ser que no tero muita dificuldade em encontrar bons negcios? Lembra-se de mim? Eu cheguei a pensar que nunca encontraria um loca! satisfatrio. Tremo s em imaginar que um dia tenha de me mudar, outra vez.  Assim que terminou de falar, Marcus enrubesceu violentamente.  Sinto muito. Eu no quis dizer que mudei de ideia sobre nosso casamento, por causa da conversa de ontem a noite.
Kaitlyn se esforou para conter um suspiro de alvio quando o carro chegou ao topo de uma colina, que dava para o lago. Mais dois minutos e eles estariam no chal, onde no haveria mais condies para discusses particulares, ou para que ela respondesse perguntas para as quais ainda no encontrara resposta.
Contemplou o lago. O ar estava to parado que a superfcie parecia um espelho.
	No parece mesmo uma safira de to azul e brilhante?  Ela olhou para Marcus.
	Voc  mesmo uma romntica.  Ele riu.  Concordo que seja um lago bonito, mas est longe de ser um dos dez mais.
 Mas  nosso!  ela protestou, quase ofendida  E isso o torna especial.
O chal dos Kendall ficava pouco acima do nvel do lago e era vizinho de outros doze. Apesar de terem sido construdos recentemente, o arquiteto cuidara para que no destoassem dos mais antigos, em estilo.
A churrasqueira j havia sido montada na areia e, pela quantidade de carros, Stephanie no deveria ter limitado os convites aos velhos amigos.
Kaitlyn relaxou um pouco. A reunio certamente no seria ntima.
Um coro de vozes femininas os saudou. Kaitlyn acenou  pequena multido e foi ao encontro dela.
	Onde esto os homens?  indagou, ao ver que Marcus era o nico  vista.
	Foram olhar o chal de Penn  Stephanie informou, atenta a meia dzia de crianas que brincavam na piscina.
	Por que no foi com eles?
No fui convidada.
Que estranho! Se ele est pensando em vender...
Se  nisso que est pensando, ainda no me procurou.
Kaitlyn mordeu o lbio e se ordenou a no se precipitar  concluses.
	No vejo razo para ele continuar conservando um lugar, que abandonou h dez anos.
	Isso no  da minha conta  Stephanie murmurou.
E tambm no era dela, Kaitlyn refletiu. O melhor era largar o assunto, antes que algum desconfiasse.
A porta da frente se abriu, de repente, e alguns homens surgiram. O jeito com que os encarou a fez se sentir culpada. Estava achando todos to diferentes! Teria Penn notado a diferena, tambm?
E l estava ela pensando em Penn outra vez...
Algumas mulheres comearam a rir. No querendo se intrometer na conversa, Kaitlyn se afastou um pouco e sentou no mesmo banco que Stephanie.
Houve um estalido e o banco quebrou. Stephanie se levantou do cho, depois de dizer um palavro.
	Desculpe  Kaitlyn murmurou.  Deve ter sido o pozinho a mais que eu comi no caf da manh.
O restante do grupo masculino, na praia, obviamente ouvira o rudo.
Penn gritou:
	Podemos subir, ou vocs pretendem derrubar o resto do terrao?
	Droga de banco  Stephanie praguejou.  No fazem nada que preste, hoje em dia.
Marcus se inclinou para Kaitlyn, que ainda permanecia no cho.
	Voc se machucou?
	Acho que no.  Ela estendeu a mo para que ele a ajudasse a se levantar.
	Talvez no devesse tentar se mover, antes de ter certeza de que est bem.
Antes que Marcus pudesse concluir a frase, Penn segurou a mo de Kaitlyn, e a puxou sem a menor cerimnia. Em seguida, ajoelhou no cho e espiou por baixo do banco.
	Se o resto do chal foi construdo na mesma base, eu recomendaria que voc fizesse um seguro, Stephanie  Penn sugeriu.
Exclamaes de surpresa e passos apressados se seguiram, conforme os convidados deixavam o terrao.
	Eu no quis dizer que a casa no  segura  Penn resmungou.
	Foi o que pareceu  Kaitlyn declarou.
Estava batendo as mos no shorts, quando Penn a deteve.
	Cuidado. Voc est com lascas de madeira por todo o corpo. Deixe-me ajud-la.
	Obrigada. Eu posso resolver isso sozinha.
Ele deu de ombros e se dirigiu para a nica outra mulher que havia permanecido no chal.
	Pena que no estava com sua cmera, hem, Jill? Teria sido uma boa tomada.
	Uma tomada digna de uma comdia de pastelo  ela concordou.
Penn quis ajud-la a se levantar.
	Quer me tirar daqui?  ela se queixou  Uma mulher em minhas condies s quer sossego. E agora est seguro aqui, depois que todos os outros fugiram.
	Para quando est esperando o beb?
	Os bebs  ela o corrigiu  devem chegar daqui a trs semanas.
	Voc est me parecendo bem mais calma hoje, do que no dia em que me contou  Kaitlyn comentou.
	J consegui me acostumar com a ideia.
	Assim  que se fala.  Kaitlyn sorriu.
Marcus ainda parecia inquieto.
Tem certeza de que no se machucou? Penn no disse uma palavra, mas o olhar que endereou a Kaitlyn era de perplexidade, como se no acreditasse que a preocupao de Marcus pudesse ser genuna. Isso a enfureceu.
Estou bem. Vamos para a churrasqueira? O sol acabava de se esconder atrs da linha das montanhas, e a luz sobre o vale se tornou plida e manchada pelas sombras das rvores.
O fogo comeava a envolver alegremente a lenha. Os adultos se sentaram ao redor. As crianas iniciaram, o que alegavam ser, uma dana de guerra.
	Onde vocs arrumaram toda essa madeira?  algum quis saber.  Por acaso puseram abaixo o velho bosque dos carvalhos?
	O lugar mais procurado de Springhill?  soou uma voz entre o coro de risadas.
	E nossos filhos? Onde se divertiriam no futuro?  disse outro. 
	Pensando bem, at que no seria uma m ideia derrub-lo 	concluiu algum.
	Bosque dos carvalhos?  Marcus indagou, calmo.  Nunca ouvi falar desse lugar.
	Mais tarde eu explico  Kaitlyn resmungou.
Marcus franziu o cenho.
	 um local muito procurado pelos enamorados  Penn resolveu elucidar a questo enquanto virava as salsichas nos espetos.  Kaitlyn ainda no o levou at l? Por falar nisso, h quanto tempo mora em Springhill?  E sem esperar pela resposta.
	Pegue a estrada em direo  cidade e vire em Blackberry Hill... O que est havendo com voc, Kitten? Est fazendo um barulho infernal.
Kaitlyn se levantou e deixou o grupo sem dizer uma palavra.
	Deveria se perguntar o que est havendo com voc mesmo e no com Kaitlyn  Marcus observou.  Voc a insultou.
Fez-se silncio no grupo. Em seguida, Penn se desculpou.
	Tem razo, Marcus. No sei o que deu em mim.
Kaitlyn cerrou os dentes e apressou o passo. Ele no sabia, pois sim! Era um criador de confuses inato. Sempre fora. Por que no continuara afastado daquela cidade e dela?
Depois de percorrer um trecho pela areia, Kaitlyn subiu em uma pedra. Sentou-se e abraou os joelhos.
No fique aborrecida, ordenou-se. Penn no poderia afast-la de Marcus, a menos que permitisse. Bastava ter pacincia por mais alguns dias.
Ela o ouviu se aproximar, embora sempre tivesse tido a capacidade de se mover nas sombras como um felino. Subiu na pedra, sentou-se a seu lado e mastigou uma haste de planta.
	O que veio fazer?  Kaitlyn indagou, sem encar-lo?  Desculpar-se?
	De jeito nenhum. Eu no fiz nada de que deva me envergonhar, Kitten. Apenas coloquei Marcus a par de um certo lugar muito frequentado em Springhill.
	Ser que voc poderia fazer o grande favor de parar de me chamar assim?
	Por qu? Porque esse nome a faz lembrar do bosque dos carvalhos e de tudo o que fazamos l?
O tom de voz foi frio, fazendo-a se arrepender imediatamente pela perda do controle.
	Claro que no. Afinal nunca aconteceu nada de to especial naquele local, que valha a pena lembrar.
	Tem razo. Sempre havia gente demais por l. O que houve de mais excitante entre ns teve este lago, e no o bosque, como palco.
Penn atirou o capim no lago. Em seguida, com a mo ainda estendida, segurou-a pelo queixo.
Por um instante, ela pensou em gritar. Em seguida quis se levantar e pular da pedra. Tambm cogitou em empurr-lo. Mas no fez nada. Seus nervos pareciam ter entrado em curto-circuito e a deixado incapacitada para se locomover. Apenas seu corao se movia. Em ritmo acelerado.
Os lbios pareceram congelar sob os dele. Era como se estivesse experimentando seu primeiro beijo. Sentia-se insegura, hesitante, como se no soubesse como corresponder.
Mas, de repente, seus lbios se aqueceram e pareceram se derreter sob os dele. Penn deixou escapar uni pequeno gemido de satisfao e aprofundou o beijo. Sua mo deslizou at a base do pescoo de Kaitlyn, atraindo-a para mais perto.
O instinto de autopreservao, contudo, avisou-a para que se afastasse daquela mo e daquela boca possessiva.
	Est tentando se livrar de mim, Kitten? No conseguir to fcil.
No aposte nisso  ela retrucou.  Deixe-me em paz! V embora!
E antes que ele desse um passo, ela saltou da pedra e saiu correndo pela praia, para a segurana da festa.
O grupo, porm, havia se dividido. Alguns continuavam conversando ao redor do fogo. Outros estavam deitados na areia ou comendo.
Encontrou Marcus depois de passar por vrias pessoas. Ao v-lo, deixou escapar um suspiro de alvio. No pensou que sua aparncia poderia tra-la. Ou que sua boca pudesse ter ficado manchada de batom. Lembrou-se, ento, de que no pintara a boca para o piquenique. Mas, e se o perfume da loo aps barba de Penn tivesse ficado impregnado em sua pele?
Marcus a fitou, curioso.
	Voc est bem, querida?
A pergunta mais carinhosa do que preocupada fez com que seu corao voltasse lentamente ao normal. Ela se recostou no ombro dele.
	Estou.
	A noite est linda. Entendo, agora, por que voc gosta tanto deste lago.
Ele confia em mim, Kaitlyn pensou. Ele me ama. Gosta das coisas que eu gosto.  honesto e sua posio  slida. Como pude duvidar de meus sentimentos?
	Eu tinha certeza de que voc tambm gostaria, querido.
Quem sabe poderemos comprar um chal aqui, um dia, quando nos casarmos?

CAPTULO III

Na manh seguinte, Kaitlyn foi acordada por um barulho vindo do sto, diretamente sobre seu quarto. Era bom que sua me estivesse entusiasmada com a mudana, mas tambm no precisava exagerar.
Olhou para o relgio sobre a mesinha-de-cabeceira e pulou da cama. Afinal no era to cedo como imaginara e ela combinara de se encontrar com a florista para discutirem sobre o buque de Sabrina e sobre os arranjos que ela queria que colocassem na piscina de sua casa, ao redor da qual se reuniriam os convidados, para a recepo.
O cachorro a saudou, na cozinha, como se no a visse h um ano.
 Teddy, pare, por favor. Sabe muito bem que eu no sou ningum quando acordo, antes de tomar uma xcara de caf.
Ela ps o cachorro para fora, preparou o caf e foi torn-lo no jardim.
Teddy se aproximou, esperanoso. Ao ver, entretanto, que a dona no trazia seu prato, voltou para perto da cerca, onde havia comeado a cavar um buraco.
O ar j estava quente, prometendo mais um dia abafado.
Kaitlyn se sentou sobre a grama com a xcara em uma das mos e um calendrio, mais um bloco e uma caneta na outra. Arrancou algumas folhas e comeou a escrever. "Agenda de hoje", "lista de compras para o novo apartamento", "lista de compras para hoje".
Em seguida consultou o calendrio. No havia um nico dia livre nas prximas duas semanas. Como poderia procurar um imvel ou organizar a mudana? Por que os novos proprietrios se recusavam a esperar mais um ms, quando ningum parecia disposto a se casar?
O porto do jardim rangeu por diversas vezes e Kaitlyn ergueu a cabea para ver quem era. Penn no correspondeu ao seu olhar. Em vez disso, continuou a examinar as dobradias.
	Este porto est precisando de um conserto.
Ao som de sua voz, Teddy parou de cavar. Abanou a cauda, latiu e comeou a correr em crculos.
	Teddy! Quieto! Voc acabar acordando toda a vizinhana!
O porto parou de ranger.
	Teddy, meu amigo, voc se lembra de mim?  Penn acariciou as orelhas do cachorro, que imediatamente se deitou.
Em seguida endireitou as costas e caminhou em sua direo. Pareceu-lhe mais alto do que nunca. Talvez porque a maior parte de seu corpo estivesse  mostra. Vestido apenas com uma bermuda jeans e uma camisa quase totalmente desabotoada, ele esbanjava cor. At o peito e os joelhos estavam bronzeados sob os pelos pretos. Como ele conseguira aquele tom? Trabalhando como sal-va-vidas?
	E ento, quer que eu o conserte?
Kaitlyn deu de ombros.
	No precisa se dar ao trabalho. Deixe que os novos donos se encarreguem disso.
Se ela tinha inteno de surpreend-lo, no conseguiu.
	Sim, eu ouvi dizer que a casa foi vendida. No sei como vendem jornais nesta cidade. Ningum precisa l-los para se inteirar das notcias. Estranho que no tenha acontecido o mesmo com relao a seu noivado. Embora eu devesse ser informado a respeito assim que pisei na cidade, s fiquei sabendo ontem a noite.
Penn a fitou como se esperasse uma resposta. Ela tomou mais um gole do caf, acrescentou mais um item em uma das listas e finalmente falou:
	Incrvel, no, como as fofocas correm?
	Talvez eu devesse me desculpar com Marcus por ter invadido seu territrio ontem.  Penn se sentou a seu lado.
	No se incomode.
	Por que no? No quer que ele fique sabendo sobre o beijo?
	No acho que seja necessrio. Afinal no significou nada.
Penn ficou calado por alguns momentos.
	H quanto tempo esto noivos? A impresso que Marcus me deu foi a de que a notcia era nova tambm para ele.
A porta da cozinha se abriu naquele instante, tambm com um rangido.
	Olhe, Kaitlyn, o que eu encontrei... Oh, ol, Penn! O seu cobertor, querida. Quando era pequena, recusava-se a dormir sem ele.
	Jogue fora  Kaitlyn recomendou com um olhar atravessado.
	No vou jogar. Vou guard-lo junto com suas roupinhas de beb. Um dia, quando tiver seus prprios filhos, entender a importncia dessas recordaes.
Kaitlyn suspirou.
- Quer dizer que passou todo esse tempo apenas mexendo em roupinhas de beb, mame?
Desse jeito, Kaitlyn pensou, a me levaria anos para arrumar a mudana.
	No. Na verdade eu estava procurando meu vestido de noiva. No que eu espere que voc queira us-lo, mas porque estou me sentindo romntica depois de saber sobre voc e Marcus.
O sorriso provocante de Penn deu-lhe ganas de enforc-lo.
	Isso altera seus planos, no, Audrey?  ele observou.  Agora, precisar comear a procurar um lugar ainda menor para morar, uma vez que Kaitlyn passar a viver com Marcus.
Audrey o fitou, assombrada.
	Ela no faria isso antes do casamento!  E aps um minuto.
	Faria?
	Claro que no. Desculpe o que disse  Penn murmurou.
	Tenho certeza de que ser um lindo casamento. J marcaram a data?
	Ainda no conversamos sobre isso  Kaitlyn admitiu, relutante.
	Engraado, esse deveria ter sido o primeiro ponto. Depois da aliana, sem dvida  ele acrescentou, depois de olhar significativamente para a mo esquerda.
Ela quase quebrou a xcara de tanto apert-la.
	Bem, agora preciso ir.  Penn se levantou.  S parei para dizer que voc pode contar comigo para o que precisar, Audrey. Seu porto, por exemplo...
	Oh, voc conseguiria fazer com que ele parasse de ranger?
O rudo me incomoda demais, e eu no consigo encontrar ningum disposto a efetuar pequenos consertos.
	Ele s a incomodar por mais treze dias, mame  Kaitlyn retrucou. S que j era tarde demais. Sua me e Penn j estavam se dirigindo ao porto em animada conversa.
Teddy tentou segui-los. Como no lhe prestassem ateno, voltou, cabisbaixo, para junto do canteiro de margaridas.
	Voc no deveria ter pensado que ele ficaria a seu lado para sempre  Kaitlyn sussurrou.  Sem expectativas, a vida  bem mais fcil. 
Tornou a, encontr-lo, naquela tarde, numa loja de ferragens. Caso tivesse percebido que ele se encontrava a sua frente na fila do caixa, teria voltado para o fundo da loja e esperado que sasse.
	Quantas ferramentas para se consertar apenas um pequeno porto  ela ironizou.
	O material no se destina ao seu porto, mas  minha casa.
Preciso efetuar vrios consertos antes de me sentir confortvel l.
	Quer dizer que voltou para ficar?
Ele a fitou e suas sobrancelhas se ergueram ligeiramente.
	Voc me parece surpresa. No, mais do que surpresa. Parece ter se ofendido com a ideia de eu permanecer na cidade por algum tempo.
	No se preocupe com o que penso  Kaitlyn respondeu, perturbada. Algum tempo poderia significar umas duas semanas, ou talvez o vero. Se ele pretendia ficar na cabana do lago, certamente no prolongaria a estadia at o inverno.  A verdade  que est sem emprego, no ? Um caso de simples abandono ou de demisso sumria?
	Eu no poderia permitir uma demisso sumria em meu curriculum, no acha? E claro que sai por livre e espontnea vontade. Alis, caso ainda no o tivesse feito, seria esse o procedimento. Eu no perderia o seu casamento por nada no mundo.
Quando chegar a hora da entrega dos convites, portanto, voc saber onde me procurar.
	Terei essa informao em mente.
Seus dedos tremiam tanto com a notcia que acabou deixando o rolo de fita adesiva, que acabara de comprar, cair no cho. Penn o recolheu,.colocou ao lado da caixa registradora e se apoiou contra o balco.
	Aposto que ser como nos filmes  ele continuou. O brilho de raiva que viu nos olhos de Kaitlyn, entretanto, o fez acrescentar   claro que estou me referindo  organizao do evento. Algo deslumbrante para provar aos clientes do que voc  capaz.
Ela precisou morder a lngua para no responder.
	Por falar nisso, talvez voc nem precisasse enviar convites.
Bastaria colocar um anncio no jornal e transformar seu casamento em uma espcie de "feira das noivas", com a possibilidade de deduzir as despesas de seu imposto de renda.
Kaitlyn engoliu em seco e forou um sorriso.
	Agradeo o conselho, mas...
	Tudo bem. No vou lhe cobrar nada pela sugesto.  Ele se antecipou a ela na hora de abrir a porta. Stan, um jovem conhecido que estava prestes a entrar na loja, foi interceptado.  O que acha, Stan? Se algum na posio de Kaitlyn organizar um casamento modelo e convidar todos os seus clientes em potencial para o evento, trata-se de um negcio legtimo, no?
	Por que me pergunta?  o jovem deu de ombros.  No sou especialista em tributao. Mas j que estamos falando sobre clientes em potencial, voc tem um carto, Kaitlyn? Meu casamento s ser no ano que vem, mas...
Penn resmungou, como se estivesse chocado.
Voc tambm? Ser que colocaram algum maldito vrus na gua desta cidade?
Kaitlyn vasculhou a bolsa e entregou o carto com um sorriso.
	D lembranas a Elaine.  Em seguida, se virou para Penn.  Leve um, tambm, no caso de acabar sendo contaminado.
	Obrigado. Eu o guardarei junto com minha coleo de objetos estranhos recolhidos em todo o mundo.  Conforme se encaminhavam para o estacionamento, ele leu:  Kaitlyn Ross, consultora de casamentos. S isso? Quero dizer, o carto  de boa qualidade, mas to simples!
	Tradicional e elegante. No simples  ela o corrigiu.
	Estou desapontado. C entre ns, imaginava que voc fosse mais criativa. Que tivesse encontrado um nome mais original para o seu negcio. Mas ainda no  tarde demais para mud-lo.
Tenho um nome perfeito em mente. "O Caminho das Noivas".
	Penn, esse  o ltimo nome que poderia me ocorrer. No v me dizer que trabalhou com publicidade, tambm...
	No direi  ele retrucou alegremente.
Kaitlyn jogou a bolsa no banco de trs do carro com uma fora desnecessria. Sabia que era tolice tentar vencer em ironia um homem que no tinha mais nada a fazer, exceto aborrecer os outros. 
Sabrina e Kaitlyn se encontraram na toalete do clube, aquela noite.
	Voc precisa fazer alguma coisa  Sabrina exigiu.  Karl cismou em convidar Penn Caldwell para padrinho, e eu no quero. 
	Karl no far isso  Kaitlyn tentou acalmar a outra.  Ele no  maluco nem jogador. Ele conhece o tipo. Penn seria bem capaz de embarcar para o Tahiti ou para a frica, com as alianas de vocs no bolso, sem se dar conta.
	 assim que voc procura me consolar?  Sabrina corou.
	No se preocupe.  tarde demais para substituies. Porm, se Karl insistir, pea para ele me ligar.
Kaitlyn voltou para o restaurante, balanando a cabea. Se Karl e Sabrina no conseguiam se entender sequer sobre o padrinho, como seria sua vida em comum?
Ainda bem que apenas o sucesso do dia do casamento  de minha responsabilidade!  falou consigo mesma.
Alguns minutos depois, Marcus se aborreceu com ela.
	Pode me dizer em que est pensando? No ouviu uma palavra do que eu disse.
	Desculpe.  que o casamento desse fim de semana est me dando muito trabalho. Como se no bastassem os detalhes usuais, os noivos no esto conseguindo chegar a um acordo.
Oh, e por falar em noivos, Stan Spaulding e Elaine...
	Outro casamento?  O tom de Marcus realmente no era entusiasmado.
	No at o prximo ano.
Com um suspiro, Marcus serviu-lhe mais vinho.
	Talvez no devesse contar com contratos to antecipados, Kaitlyn.
	E de que outra forma eu poderia sobreviver no negcio?  Ela o fitou, espantada.
	Estive refletindo sobre o assunto. Voc acha uma boa ideia continuar com esse tipo de atividade depois que nos casarmos?
	Claro que sim  ela respondeu com firmeza.  Por que pergunta?
	Ser que no percebe, querida, que sempre que temos uma oportunidade de ficarmos juntos, surge um casamento?
	Nos fins de semana, sim. No resto do tempo, quem fica preso aos negcios  voc.
	Kaitlyn, seja razovel.
	Estou sendo razovel. Concordo que tenhamos um problema. Mas por que s podemos pensar em ficar juntos nos fins de semana? Por que voc no altera sua agenda, de vez em quando?
Durante as manhs, por exemplo, estou sempre livre.
	Seria difcil eu jantar com os clientes de manh, no acha?
	Ento no se trata de nosso tempo disponvel, mas de suas obrigaes e da forma como poderia me encaixar entre elas.
	Voc sabe que jantares com clientes  uma parte importante do meu trabalho. Eu gostaria de t-la a meu lado, tambm nessas ocasies, depois de nos casarmos.  Marcus estendeu a mo e segurou a de Kaitlyn.  Eu gostaria que voc empregasse seu talento e organizasse reunies para meu benefcio, tambm. Afinal no  disso que tratam os casamentos? De se compartilhar coisas? Ela no podia discordar. Ele tinha uma certa razo, e ela realmente gostaria de ajud-lo em sua carreira.
	Eu concordo com voc. S que o assunto surgiu to repentinamente... Eu adoro o que fao, e a perspectiva de ter de abandon-lo...
	Voc mal est ganhando para cobrir as despesas  ele observou.
	Mas no estou fazendo isso apenas pelo dinheiro. Desde que eu consiga me sustentar, e tenho sido bem-sucedida at agora...
	Voc no ter de se sustentar por muito mais tempo.  Ele sorriu e lhe apertou a mo. Em seguida a soltou e retirou uma caixinha de couro do bolso.  Quero lhe dar algo antes de partir.
O anel era de ouro, com um imenso diamante, cercado de pequenos rubis.
	Partir? Onde voc vai?
	Louisiana.  Ele tirou o anel de dentro da caixinha forrada de veludo, e o colocou no dedo de Kaitlyn.  Irei busc-la para jantar e para conversarmos sobre o nosso casamento, na sexta-feira, assim que chegar.
	Impossvel.  Ela negou com a cabea.  O casamento de Sabrina ser no sbado, e eu estarei muito ocupada.
	No domingo, ento.  Ele suspirou.  Poderemos jogar golfe com um casal, que trarei comigo da viagem.
No domingo ela ainda estaria ocupada com a limpeza e devoluo dos materiais, mas daria um jeito. Teria de dar.
Marcus estava certo. Suas agendas no combinavam e isso no mudaria no futuro. Teriam de fazer alguma coisa a respeito.
At o tempo colaborou para o casamento de Sabrina Hart. No incio de junho, Springhill costumava ser chuvosa. Naquele sbado, contudo, o sol brilhou at o final da tarde.
A brisa, que soprava sobre os arranjos florais por cima das mesas que ladeavam a piscina, era clida e delicada. As chuvas,
que haviam cado nos ltimos dias, haviam sido suficientes para dar vio ao gramado, sem comprometer as ptalas das flores. Em resumo, mesmo que a prpria Kaitlyn fosse a responsvel pela escolha da data, o resultado no teria sido mais perfeito.
No interior da casa, o pessoal do bufe estava terminando de colocar a ltima parte do bolo sobre a mesa principal, que mais parecia uma nuvem de chiffon, em tom amarelo plido. Kaitlyn prendeu o flego at ver o bolo em segurana sobre a estrutura de trs andares. Em seguida relaxou um pouco. Mas s se afastou do local depois que os laos de fita e as flores completaram a decorao.
Kaitlyn piscou para o responsvel do bufe em sinal de aprovao, antes de se dirigir ao outro extremo da enorme sala. O bar estava pronto. A comida? Bem, quanto a esse detalhe, ela teria de confiar na palavra que lhe haviam dado de que todos os pratos seriam entregues enquanto os noivos e convidados estivessem na igreja.
Por enquanto no havia mais nada a ser feito.
Ela consultou o relgio de pulso. Talvez devesse verificar se Sabrina e as damas de honra precisavam de alguma coisa.
Risadinhas ecoavam pelo corredor que levava ao quarto da noiva. Ao abrir a porta, ela viu Sabrina de imediato, diante do espelho, com seu vestido longo de cetim branco. As amigas, todas vestidas no mesmo tom de amarelo, se afastaram para que Kaitlyn pudesse passar. Ela, porm, havia ficado paralisada no lugar.
O que Jill estava fazendo ali?
	Pensei que seu scio se encarregaria das fotos de hoje.  Ela tentou no demonstrar o pnico que sentia.
	Ns dois iramos atender este casamento  ela explicou, enquanto tentava ajeitar a cmera , mas a filha dele sofreu um acidente de carro esta manh.
	Espero que no tenha sido nada de grave.
	Ela ficar bem, mas a famlia est to assustada que no quer sair de seu lado. Olhe para seu buque, Sabrina. Isso. Agora d um sorriso bem romntico.
Kaitlyn decidiu ignorar a inesperada troca de fotgrafos. Afinal, nada poderia ser feito para mudar o fato. No quela hora. De qualquer forma, Sabrina no ficaria sem seu lbum de casamento.
Respirou fundo e se forou a relaxar. Daquele momento em diante, at que o ltimo convidado se fosse, ela no poderia baixar a guarda nem por um segundo.
	As limosinas chegaro em meia hora  informou.  Esto todas prontas? As roupas esto em ordem? A maquagem?
No as deixou at que estivessem dentro dos carros e a caminho da igreja. Em seguida, entrou em seu prprio carro e acelerou. Queria chegar antes que a noiva a fim de verificar os ltimos detalhes.
Sabrina iria se casar em uma igreja muito maior do que aquelas que conhecia. Seria, portanto, ainda mais difcil se certificar de que cada flor, cada vela, e cada lao de fita estivessem impecveis.
O sino badalou a hora e o burburinho, que j lhe era familiar, tomou conta de toda a congregao.
Dessa vez foi Penn quem lhe fez um sinal positivo com o dedo. Estava sentado ao lado de sua me e usava um temo cinza escuro. Nada de fraque ou gravata branca como usaria um padrinho.
Um imenso alvio a fez suspirar, pois Karl no havia lhe garantido que seguiria suas sugestes.
Ela ouviu a limosina parar diante da igreja e saiu imediatamente. A me de Sabrina veio ao seu encontro.
	Voc se atrasou. O casamento est atrasado.
	Os sinos ainda no pararam  Kaitlyn observou, calma.  A marcha nupcial se perderia se tentssemos competir com eles, no acha? No se preocupe, sra. Hart, prometo que tudo correr bem.
A me da noiva no lhe pareceu disposta a se acalmar, mas acabou voltando para a sacristia. Kaitlyn sorriu. As mes costumavam ficar mais nervosas, nos ltimos minutos, do que as prprias noivas.
Naquele instante, Sabrina subiu a escadaria, de brao com o pai.
	No momento exato  Kaitlyn se parabenizou. A fotgrafa, contudo, no se moveu.  Jill?
	Desculpe, Kaitlyn. Ando um pouco lenta ultimamente.
	O que no  de se admirar. Voc parece muito cansada.
 O esgar de dor que passou pelo rosto da outra fez Kaitlyn adivinhar a horrvel verdade.  S que no se trata de cansao, no ? Oh, Deus, Jill, voc est em trabalho de parto!
	Claro que no.  A fotgrafa tentou sorrir.  Os bebes s devem chegar daqui a duas semanas.
	Gmeos?  indagou uma senhora que passou por elas.  No dizem que os gmeos sempre adiantam?
	Espero que no resolvam nascer bem no dia do meu ca samento  sussurrou Sabrina por entre os dentes.
O pai pigarreou.
	Os bebs no costumam dar qualquer importncia ao dia.
No seu lugar, srta. Ross, eu levaria a moa ao hospital agora mesmo.
Jill fez um movimento negativo com a cabea.
	Quero fotografar a noiva, ao menos, at o altar. No posso deix-los na mo.
A contrao seguinte obviamente foi ainda mais dolorosa, pois gotas de suor surgiram sobre a testa de Jill e ela no recusou a cadeira que o sr. Hart se apressou a buscar.
Os pensamentos tamborilavam na mente de Kaitlyn.
	Sim, pode. Assim que eu encontrar seu marido, voc ir para o hospital. Agora me d a cmera. Eu mesma tirarei as fotos, se for preciso.
E seria. O scio de Jill estava junto ao leito da filha. No havia outro estdio fotogrfico profissional na cidade. E um casamento estava prestes a comear...
Kaitlyn entrou na igreja e todos os presentes se voltaram em sua direo. O silncio era total. A organista aguardava seu sinal para dar incio  marcha nupcial.
As perguntas mudas quase podiam ser ouvidas. O que estava acontecendo de errado? A noiva ainda no chegara? O noivo resolvera desistir? Teria surgido algum disposto a impedir que o casamento se realizasse?
Do altar, a me de Sabrina a fitava, desconfiada. As palavras que Kaitlyn lhe dissera, havia poucos minutos, agora amargavam sua boca. "Prometo que tudo correr bem".
Se a promessa no fosse cumprida, ela certamente poderia dar adeus a qualquer recomendao futura. Os negcios fracassariam e Marcus teria seu desejo satisfeito, afinal.
Ao menos teria uma boa desculpa, cogitou. Se dissesse que desistira por causa de Marcus, ningum poderia cham-la de incompetente.
Assim que encontrou o marido de Jill, olhou para cada rosto, tentando se lembrar se haveria algum em condies de assumir o trabalho da fotgrafa. Tinha de haver.
Um fragmento de uma conversa, algo a que no dera grande importncia na ocasio, voltou-lhe  mente.
Penn fitou-a, perplexo, quando se sentou a seu lado e pediu, sem prembulos:
	Preciso de um favor.
	Estou ouvindo.
	Preciso de algum que saiba lidar com equipamento foto grfico profissional.
	Deveria ter pensado nisso antes, concorda?
	Bebs e acidentes automobilsticos no marcam hora, Penn.
A culpa no  minha.
	O que a faz pensar que eu poderia substituir a fotgrafa?
	Voc sempre se interessou pelo assunto e eu o vi conversando com Jill, no domingo passado, como se ainda cultivasse o hbito. E voc no comentou algo sobre cartes postais?
	Pura brincadeira. No sou um profissional.
	Poderia me indicar algum que seja?
Ele no respondeu.
	Eu lhe direi quando e o que fotografar. Por favor, Penn, preciso de voc desesperadamente.  Ela segurou-lhe o brao.
	Estou pronta para me ajoelhar e suplicar, se quiser.  A mo de Penn pousou sobre a sua, dando-lhe uma certa sensao de conforto.  Faa seu preo.
	Sua proposta, agora, se tornou irrecusvel.  Ele sorriu.
	Tudo bem para voc se eu estipular o preo s depois do casamento?
	Que droga, Penn...
Ele se limitou a arquear uma sobrancelha. Kaitlyn, por sua vez, foi atrada pelo burburinho de inquietao na igreja e pelo olhar de desafio da sra. Hart. Comparando o prospecto do fracasso daquela cerimnia com uma pequena chantagem financeira por parte de Penn, ela no teve dvidas.
	Tudo bem.

CAPITULO IV

Para Kaitlyn, a cerimnia foi um pesadelo. No incio tentou auxiliar Penn, seguindo todos os seus passos e dando ordens que no foram ouvidas.
Depois de alguns minutos achou melhor desistir. Sentou-se, ento, em um canto escondido, lutando para no roer todas as unhas. Seu nico consolo era imaginar que Penn sabia o que estava fazendo. Ao menos ainda no deixara a cmera cair, nem tropeara no tapete.
Os ltimos acordes do rgo ainda pairavam na igreja quando os noivos se beijaram.
Ela pensou em correr atrs de Penn para se certificar de que ele no esqueceria de imortalizar aquela cena no filme. O olhar da sra. Hart a deteve. Imediatamente deixou de se preocupar com Penn.
	Rpido! Para a limusine! Se demorarem mais um minuto, os convidados os cercaro para os cumprimentos, e isso s dever ocorrer ao chegarem para a recepo!
Karl e Sabrina se apressaram a obedec-la. Kaitlyn quase empurrou Penn em direo a seu carro.
	Se no se importa, eu prefiro dirigir.  Ele estendeu a mo para que ela lhe entregasse a chave.
Kaitlyn no discutiu. Talvez essa fosse a melhor opo. Nervosa como estava provavelmente acabaria batendo o carro durante o trajeto.
	Detesto ter de mencionar o fato, mas ser que no cometemos nenhum erro?  Penn indagou.  As fotos tradicionais de famlia, por exemplo, no foram esquecidas?
Kaitlyn encostou a cabea contra o banco de veludo e fechou os olhos.
	A me de Sabrina no se d muito bem com os parentes.
Pediu que fotografssemos apenas alguns grupos, durante a recepo.
	Que pena. Assim no poderei lhe cobrar tanto quanto pretendia.
Kaitlyn abriu lentamente os olhos.
	Se voc tivesse ao menos um pouco de conscincia, ofereceria seu trabalho como um presente de casamento aos noivos.
	Est querendo voltar atrs, Kitten? Pensei que tivesse dito que eu poderia fazer meu preo.
Inquieta, Kaitlyn se ps a tamborilar com os dedos. O sinal fechou e Penn segurou-lhe a mo.
	Vejo que finalmente ganhou seu anel de noivado.
Ele parecia no querer mais solt-la. Parecia hipnotizado pelo brilho do diamante que refletia as luzes da rua.
	O sinal est verde  ela avisou.
	Uma pedra e tanto  ele comentou alguns quarteires depois.  Pende um pouco para o amarelo para ser perfeita, mas...
	Oh, no me diga que esteve em Amsterdam, tambm, e que se especializou em diamantes?  Kaitlyn zombou.
	No. A ideia, porm, no  m.
Ele deixou o carro diante da casa dos Hart, apanhou a cmera e saltou. Kaitlyn passou para o banco do motorista e estacionou o veculo.
O nico ponto favorvel naquela situao, ela pensou, era que durante todo o trajeto no tivera tempo para se preocupar com as fotografias, de tanto que Penn a irritara.
A recepo no foi mais animadora do que a cerimnia.
Em meio aos brindes, Penn se aproximou e lhe sussurrou ao ouvido.
	Agora entendi.  Ele indicou as damas de honra.  A nica razo para as noivas desejarem se cercar de meia dzia de amigas, vestidas iguais,  para se sobressarem com seus lindos vestidos brancos!
Kaitlyn gostaria de recrimin-lo mas acabou sorrindo. Aquela era a pura verdade.
Pouco mais tarde, quando a orquestra comeou a tocar e Marcus a tirou para danar, Penn tomou uma atitude que ela abominou.
- V em frente, Kitten. Divirta-se. Acho que posso arcar com toda a responsabilidade sozinho.
Marcus,  claro, no teve outra alternativa a no ser franzir a testa e se afastar em direo ao bar.
	Por que fez isso?  Ela se zangou.  Marcus tinha todo o direito de querer danar comigo.
	E ele sempre recorre a bebidas, quando se sente desapontado? No seu lugar, eu me preocuparia.
Sem lhe dar tempo para responder, Penn atravessou a pista para tirar mais uma foto dos noivos.
A sra. Hart surgiu a seu lado. Seu sorriso era doce, mas a voz no poderia ser mais rspida.
	Quero que saiba, srta. Ross, que no lhe pagarei a ltima parcela at ver as fotografias.
Kaitlyn no teve o que responder. No podia culpar a mulher por estar insatisfeita. Afinal estava se preparando h um ano para o casamento da filha, e gastara milhares de dlares para torn-lo perfeito.
A noite se arrastou, mas felizmente chegou ao fim, com os noivos partindo em lua de mel, e os convidados se despedindo.
	Pode ir agora, Penn. Apenas deixe a cmera e o filme comigo, para que eu possa devolv-los a Jill.
	No posso. Voc praticamente me raptou e eu no tenho como voltar para casa. Alm disso, ainda precisamos debater sobre o preo.
	Se ainda no decidiu o que cobrar, eu falarei com Jill e lhe pagarei o de praxe.
	E o que aconteceu  sua proposta de me pagar o que eu estipulasse?
	Que tal pensar em termos de amor pelos amigos?
	No entendi muito bem o que voc quis dizer, mas parece interessante.
	Estou me referindo a sua amizade por Karl  ela explicou em tom mais spero do que pretendia.
	E deixar voc de fora? Sinto muito, Kitten, mas isso eu no farei. Assim que tiver uma ideia sobre o preo, voc ser informada.
	Mal posso esperar  ela retrucou, sarcstica.
	Tomara que Marcus no a tenha ouvido. Ele poderia ter ideias erradas. No para de olhar para ns. Parece um marido ciumento. A propsito, onde vocs passaro a lua-de-mel?
	No sei.
	Quer dizer que ainda no discutiram a respeito? Talvez eu pudesse fazer algumas sugestes.
	Como o deserto do Sahara, suponho.
	Claro que no  ele desmentiu, como se estivesse realmente surpreso com a escolha.  Para voc e Marcus teria de ser um lugar muito especial.
Kaitlyn estava to cansada que poderia dormir doze horas ininterruptas. E talvez tivesse feito isso, no fosse um horrvel pesadelo atorment-la. Fotos coloridas de uma noiva sem cabea caam sobre sua cama como uma cascata. Quando ela abriu os olhos, seus braos estavam erguidos para proteg-la do ataque.
Ajeitou os lenis amarfanhados e olhou para o relgio de cabeceira. Ainda eram apenas sete horas de uma manh de domingo, mas tinha certeza de que no conseguiria mais dormir.
Abriu a porta da cozinha para que Teddy sasse e, em seguida, preparou um bule de caf.
Estava sentada no terrao, com a cabea entre as mos, tentando imaginar o resultado final do fiasco da noite anterior, quando um assobio atraiu sua ateno.
	Pela sua cara, um comprimido contra dor de cabea iria bem  Penn comentou, enquanto largava sua caixa de ferramentas no cho para afagar o cachorro.
	O que est fazendo aqui?  ela retrucou, mal-humorada.
No acha que  cedo demais para consertar o porto? O barulho acordar os vizinhos.
	O champanhe era excelente, eu concordo, mas no deveria ter bebido tanto...
	No estou com ressaca, se  a isso que se refere. Nunca bebo quando a festa  de minha responsabilidade. Meu problema est relacionado a voc e s fotografias. Cheguei a ter um pesadelo por causa delas.
	 assim que me agradece por eu t-la ajudado, e por estar aqui para consertar seu porto?
	No deveria ter vindo to cedo.
	Acostumei-me a levantar de madrugada.
	Por qu? Por acaso esteve em algum pas do terceiro mundo
que ainda no possui luz eltrica?
Penn no respondeu. Levantou-se e foi at a cozinha. Quando voltou, trazia uma xcara em uma das mos e o bule na outra.
	Meu maior pavor  que voc tenha fotografado apenas os corpos e cortado as cabeas  Kaitlyn desabafou.
	E por que eu faria algo assim?
Ela deu de ombros e rosnou. '
	Sabe que voc  um mau exemplo para Teddy? E Marcus?
Ser que ele imagina que voc rosna quando acorda cedo?
- No se trata de acordar cedo, mas de ver voc!
	Nesse caso, no direi nada. Mas por que est to preocupada? As fotos, por melhores que tenham sado, acabaro rasgadas em mil pedaos, um dia.
	No acredita que o casamento de Sabrina e Karl d certo?
	Acredito que ela tenha se ocupado demais com os preparativos, para que tenha lhe sobrado algum tempo para pensar no casamento propriamente dito.
	Oh, um Penn Caldwell romntico! Por essa eu no esperava.
 Kaitlyn esperou que Penn fizesse algum comentrio. Como ele no dissesse nenhuma palavra, prosseguiu   natural que a excitao diminua um pouco depois de saciada a novidade, mas isso no significa...
	Karl e Sabrina esto se encaminhando para o divrcio desde antes da cerimnia, embora no saibam. Ainda bem que no somos responsveis pelo sucesso de todo o casamento, mas apenas pelas fotos.
	Voc fala como se meu trabalho fosse um transtorno, mas eu gosto dele. Na maioria do tempo, ao menos. Nem todas as noivas so como Sabrina, nem todas as mes so como a me dela, e nem todos os casamentos incluem incidentes como o de ontem.
	S os grandes.
	Sim, concordo que sejam mais preocupantes. No entanto, tambm so os que pagam melhor.
Penn se serviu de mais uma xcara de caf.
	Nunca pensou em contratar um assistente?
	Prefiro euidar de tudo sozinha. No sei de ningum em quem poderia confiar. O mais provvel  que continuasse me encarregando de todos os detalhes, e ainda tendo de dividir os lucros.
	Eu estava pensando no futuro. Acha que dar conta de organizar o casamento dos outros, estando casada, tambm?
	Se est sugerindo que eu recuse o pedido de Marcus...
	Deus me livre! Isso nunca passou pela minha cabea.
	Mas se passou, esquea. Meu trabalho no comprometer meu casamento. Marcus  um homem maravilhoso e...
	Voc o ama muito  Penn completou, olhando-a por trs da xcara.
Uma vontade imensa e irracional de obrig-lo a engolir o caf com xcara e tudo a invadiu. Ento lembrou-se de que nada a obrigava a permanecer sentada ao lado dele e a ouvir suas provocaes.
	Vou dormir mais um pouco. Divirta-se com o porto.
	Prefere dormir a desfrutar de um dia como o de hoje?  Penn indagou, sarcstico.  Ou ainda est sofrendo as consequncias do trabalho de ontem? Talvez algum devesse avisar Marcus a respeito.
Ela mordeu o lbio, mas no adiantou. Cravou os olhos sobre ele e esbravejou:
	Avis-lo de que?
Penn sorriu.
Se todos os casamentos a deixam exaustas, como parece estar, a situao de Marcus no ser nada boa quando for seu marido. Onde voc buscar energias para atravessar a noite de npcias e as demais?  Ele balanou a cabea.  Pobre Marcus.
Dessa vez ela no tentou se conter. Deu-lhe as costas e marchou em direo a casa. Ao chegar em seu quarto, bateu a porta como se quisesse arranc-la.
Saiu-se pssima no jogo de golfe, aquela tarde. Seus nervos estavam em frangalhos e a coordenao comprometida. Na dcima tentativa e fracasso, resolveu recolher sua bola e desistir.
Foi um alvio quando a partida terminou e Marcus e os dois executivos da Turfmaster a convidaram para um drinque na sede do clube.
O ambiente, porm, no estava to sossegado quanto ela desejaria. Mais de duas dzias de pessoas deveriam estar reunidas ao redor do marido de Jill, que acenou ao v-la.
	Duas garotinhas.  Ele lhe mostrou a foto.  Nasceram logo depois da meia-noite, Kaitlyn examinou os dois bebs vermelhos e enrugados e sorriu.
	So lindas!
Marcus se aproximou com um copo na mo.
	Achei que voc gostaria de um martni, querida. E de um lugar para sentar  ele indicou uma cadeira, depois de aceitar um charuto do orgulhoso pai.  Importa-se?  Sem esperar que ela respondesse, Marcus acendeu o charuto e se recostou, satisfeito.  No foi to difcil, foi?
Kaitlyn tomou um gole do aperitivo e em seguida pediu  garonete que o trocasse por um copo de ch gelado.
	O que  que no foi difcil?
	Recepcionar meus superiores. Eles gostaram de voc. E gostaram, tambm, da ideia de nos casarmos. Disseram que o casamento torna os homens mais estveis.
Naquele instante eles voltaram do vestirio e se reuniram ao casal.
	Fiquei surpreso com esta cidade  um dos homens declarou.
No esperava que progredisse tanto, quando a fbrica foi comprada.
Kaitlyn sorriu.
	Em pensar que a primeira empresa surgiu apenas porque
seu dono veio atrs da ex-esposa para tentar uma reconciliao.
Ambos os executivos se entreolharam. Em seguida olharam para Kaitlyn, como se ela tivesse dito uma grande bobagem.
	A senhorita deve estar enganada. No  dessa forma que so tomadas as decises no mundo dos negcios.
	Os senhores  que esto enganados  ela retrucou com rebeldia.  J devem, inclusive, ter conhecido a pessoa a quem me referi.
Como ousavam duvidar de sua palavra? Ela certamente conhecia a histria de sua cidade. Afinal nascera e crescera ali.
O aborrecimento a fez se desligar da conversa. Talvez por isso tivesse ouvido uma parte do dilogo que estava acontecendo na mesa ao lado.
	Voc tem visto a propriedade Delaney ultimamente? O mato est crescido e a casa da fazenda caindo aos pedaos. No entendo por que ele deseja comprar o local  comentou um dos homens.
	Penn me disse que tem planos de perfurar o solo em busca de petrleo.
Kaitlyn franziu o cenho. Por que diabos Penn estava interessado em comprar as terras do velho Delaney? Certamente no tinha esperana de encontrar petrleo. Aquilo seria pura especulao. O mais provvel era que tivesse dado essa resposta apenas para se livrar da curiosidade de algum abelhudo. Mas, de qualquer forma, deveria haver algo de verdade na histria de que Penn estava disposto a comprar uma propriedade em Springhill.
	O que est havendo?  Marcus indagou, impaciente, arrancando-a de seus devaneios.  Eu lhe perguntei se gostaria de jantar conosco, e voc no respondeu.
	Claro que sim  ela se apressou a dizer.  Apenas gostaria de tomar um banho antes.
	Ter tempo para muitos banhos. O convite  para a prxima sexta-feira, querida. Nesse dia, estes cavalheiros estaro se despedindo aps conclurem a inspeo na fbrica.
	Oh, sim. Desculpem. Eu me distrai.
De incio ela se sentiu aliviada em saber que no teria de suportar a companhia daqueles dois homens antipticos durante toda a semana. Lembrou-se tarde demais de que na sexta-feira ela estaria comprometida com o ensaio final do casamento de Laura McCarthy.
No ficaria bem para sua imagem cancelar um compromisso que havia assumido a menos de dois minutos. Preferiu, portanto, calar o assunto no momento e abord-lo somente quando estivesse a ss com Marcus.
	O ensaio no durar a noite toda. Voc fica o mnimo indispensvel e eu atraso o jantar ao mximo. No final, dar tudo certo.
Ele procurou contornar o problema, ela percebeu, mas era bvio que ficara aborrecido.
A florista estava rouca de tanto gritar ao telefone. Seu fornecedor acabara de lhe informar, a menos de quatro dias do casamento de Laura McCarthy, que no conseguiria atender a encomenda dos copos-de-leite.
	Eu prometi a Laura que lhe faria um buque de copos-de-leite, e s agora me dizem que ser impossvel  ela se queixou a Kaitlyn.
	Laura ter de entender.
	No tenho coragem de lhe dizer.
	Eu darei o recado. Afinal esse  o meu trabalho.
Kaitlyn deixou a floricultura com a garantia de que o buque poderia ser feito de aucenas, e tambm com um boto de rosa. Um presente da florista por ter se oferecido a dar a notcia  noiva em seu lugar.
Graas aos cus o imprevisto no acontecera na semana anterior, Kaitlyn pensou. Laura era uma pessoa de bom senso. Ficaria desapontada,  claro, mas entenderia. No caso de Sabrina, todas as reclamaes do mundo seriam poucas.
Estava saindo da loja quando avistou Penn. Como no havia jeito de fingir que no o vira descendo os degraus do cartrio, caminhou em sua direo.
	Ol. Como est se saindo com os consertos?
	Tudo bem.  Os lbios de Penn se distenderam em um amplo sorriso.  Por que no toma um milk-shake comigo enquanto conto sobre a cabana?
Era isso o que dava tentar ser educada, Kaitlyn resmungou consigo mesma. Agora no teria como recusar o convite.
Penn a levou a uma pequena sorveteria e pediu dois milk-shakes de chocolate.
	Troque o meu por um club soda, por favor  ela avisou a garonete.
	Eu deveria ter imaginado. At o dia do casamento voc ter de vigiar estreitamente seu peso. Se a conforta, prometo que meu presente ser um liquidificador. Assim, mais tarde, quando a forma fsica no lhe parecer to importante, voc poder tomar quantos milk-shakes quiser.
	Obrigada, Penn, mas...
	Ou, se preferir, eu poderei lhe dar um lbum de fotos do casamento. Seria um presente bem mais caro, sem dvida.
	Mais caro? No force a "barra", Penn. Ainda no vi os resultados da semana passada.
Ele deu um sorriso maroto.
	Que tal um cachorrinho?
	J tenho Teddy. E voc? Pretende comprar um?
	No.
	Foi o que pensei. Do jeito que viaja,  impossvel possuir um mascote. E por falar em viagem, ser que estar em Springhill at a data do meu casamento? Eu e Marcus decidimos que ser no dia dos namorados.
	Tem coragem de fazer Marcus esperar oito meses?
Ela ignorou a pergunta.
	Meu conselho  que no se preocupe muito com o presente que gostaria de me dar. Talvez eu no o convide.
	Ento eu procurarei me tomar amigo de Marcus. Quem sabe ele esteja precisando de um porteiro.
	No creio.
	Tambm no gostaria de ser um. Prefiro trabalhar com voc, como seu assistente,
	No, obrigada.
	Kitten, pense bem. Voc no poder ficar andando pela igreja e pelo salo, de um lado para o outro, de vestido de noiva.
Os convidados estranhariam. Se eu estiver no comando da festa, voc at poder tomar uma ou duas taas de champanhe e comer uma fatia de bolo. 
	Esquea.
	Tenho certeza de que Marcus aprovaria a ideia. Comigo  frente do trabalho, voc estaria mais descansada para a noite de npcias.
Kaitlyn cerrou os dentes.
	Ainda no me disse uma palavra sobre a cabana.
	Oh,  verdade. Ela est quase pronta. S falta instalar o aquecedor. Por que no d uma passada por l para ver como ficou?
Ela estendeu a mo sobre a mesa. Os dedos trmulos esbarraram no copo e o lquido entornou se esparramando peia toalha e por sua saia.
	Um aquecedor?  ela gaguejou.  Para que precisa de um aquecedor em uma casa de vero?
	Para poder continuar l no inverno, tambm, caso me d vontade.
	Voc vai morar l?
	Eu j estou morando l, Kitten.
	Para sempre?
	Provavelmente no.
Ela secou a saia com um guardanapo.
	 isso que h de errado com voc, Penn. Nunca assume nada, porque no gosta de se comprometer. Nunca termina nada,
porque sempre  atrado por alguma outra coisa no meio do caminho. Largou a faculdade aps um ano. Desde essa poca nunca se firmou em um emprego.
Ele no respondeu, mas parou de beber e a encarou com ateno.
Ela prosseguiu depois de um momento:  Quando era mais jovem, esse esprito aventureiro poderia ser visto como uma qualidade. As pessoas deveriam invej-lo
por sua vida excitante. Agora, contudo, devem sentir pena de voc.
Incapaz de conter as lgrimas que teimavam em surgir, Kaitlyn baixou a cabea e fingiu se ocupar com a bolsa.
	Foi por essa razo que voc se apegou ao Marcus? Havia apenas curiosidade na voz de Penn. Ele no parecia aborrecido nem amargurado.
	Por ele ser algum em quem se pode confiar?
	No. No foi isso que eu quis dizer. O que eu perguntei foi se o seu namoro com Marcus tem algo a ver com o fato de eu no ter me casado com voc. Ser que ainda sente raiva de
mim, Kitten, depois de todo esse tempo? No  por esse motivo que procura brigar comigo sempre que nos encontramos?
Ela o encarou por um instante. Depois saiu correndo. As palavras que ele dissera, porm, continuaram perseguindo-a. "Ser que ainda sente raiva de mim, depois de todo esse tempo, porque eu no me casei com voc?

CAPITULO V

Kaitlyn atravessou a praa espumando de raiva.. Maldito convencimento masculino! Dez anos haviam se passado e Penn continuava pensando que ela no o esquecera aps todo aquele tempo. Pior ainda. Que ela ficara noiva de outro apenas para lhe fazer cime. Que tolice colossal! Do jeito que ele falara, at parecia que nenhum homem se interessara por ela durante todo o perodo.
Se permanecera solteira no fora por falta de oportunidade. E muito menos porque ela ainda no esquecera seu primeiro amor. Penn era o maior dos egocntricos se realmente acreditava que ela aceitara a proposta de Marcus apenas para lhe provar que algum ainda a desejava.
Estava alcanando o carro, o sangue pulsando com fria em suas veias, quando um movimento do outro lado da rua a fez parar. Algum lhe acenava vigorosamente da porta do estdio fotogrfico. As fotos do casamento de Sabrina deveriam ter ficado prontas. Para a recepcionista acenar daquele jeito, deveriam estar pssimas...
	Pensei que no fosse me ouvir  declarou a jovem. Sei que est ansiosa por ver o resultado das fotos, por isso aproveitei a hora do meu almoo para entreg-las na casa de Jill.
	Como ficaram?
	Sinto muito, mas no as vi. O envelope estava fechado.
Kaitlyn agradeceu e praticamente correu para o carro. Talvezno devesse incomodar Jill, que acabara de sair do hospital, mas no estava em condies de esperar mais um minuto sequer. Faria uma visita rpida e aproveitaria para entregar os presentes que comprara naquela manh.
Um Jaguar preto estava estacionado diante da casa. timo, Kaitlyn pensou. Se Stephanie se encontrava com Jill, ela no precisaria se levantar para atender a campainha.
Realmente foi Stephanie quem veio abrir a porta, com uma das gmeas nos braos.
A irm estava recostada em uma poltrona, na sala, dando de mamar  outra menina.
	Como voc poder dar conta das duas?  Kaitlyn indagou, inclinando-se para o beb com um sorriso e depositando ambos os presentes na cadeira ao lado de Jill.
	Por enquanto no houve nenhum problema  Jill sorriu.
 Quero ver mais tarde, quando comearem a engatinhar. As fotos esto sobre a mesa da sala de jantar.
Os bebs foram momentaneamente esquecidos.
Kaitlyn largou a bolsa, apanhou a pilha de envelopes e se sentou no sof para examin-los. Cada uma das cem fotos estava protegida por uma capa transparente. As doze primeiras haviam sido tiradas por Jill.
As mos de Kaitlyn tremiam.
	At que as fotos no ficaram ms  Jill comentou.  Podem no merecer o prmio mximo de uma exposio, mas, ao menos, esto bem focalizadas. Acho que os noivos no tero do que reclamar.
	Acho que vou ter de aprender a respirar novamente, depois de cinco dias com a respirao suspensa  Kaitlyn desabafou.
	Diga a Penn que eu estou  disposio se ele quiser aprender alguns truques. Posso at lhe oferecer um emprego, se ele quiser.
Com o aumento do nmero de casamentos, s eu e meu scio no teremos condies de atender a todos.
	Seria melhor voc no contar muito com isso. Penn  muito instvel. Talvez devesse recorrer a ele apenas em casos de emergncia.
Stephanie parou de embalar o beb por um instante. - Acho que qualquer um se tornaria instvel se tivesse de passar pelo que Penn passou. No me admiro por ele ter entrado em parafuso por uns tempos.
Kaitlyn quase sentiu vergonha de si mesma. Em seguida se lembrou da acusao insana que ele lhe fizera no restaurante e o sangue voltou a ferver em suas veias. O melhor seria no retrucar.
	Posso segurar a nen, Jill, se j acabou de amament-la?
A garotinha agitou os braos por um momento, depois fitou-a com seus pequeninos olhos azuis, e por fim adormeceu.
Jill se esticou na poltrona at alcanar os presentes que Kaitlyn trouxera.
	Acho que esta  a primeira vez em trs dias que no tenho  nada nos braos.  Ela riu.  Ou talvez as horas estejam se transformando em dias... Oh, que vestidinhos mais adorveis!  Ela tocou o fino tecido e acrescentou  Para onde vai se mudar, Kaitlyn?
	Ainda no sei.
	Mas voc tem de deixar a casa em menos de uma semana!  espantou-se Stephanie.
	No preciso que ningum me lembre  Kaitlyn replicou, spera.  Sei perfeitamente que voc me jogar na rua na prxima segunda-feira. Ainda bem que  vero. Eu no morrerei congelada.
Stephanie pestanejou.
	Andei to ocupada nos ltimos dias que acabei me esquecendo de voc e de sua me. Como ela est?
	J encontrou um lugar, mas no poder se mudar para l at pint-lo e trocar o carpete. Nesse perodo ficar com sua irm, em Omaha.
	Ns encontraremos um lugar tambm para voc. No se desespere.
	Como se fosse possvel! Tenho um casamento no sbado e me mudo na segunda de manh. Qualquer um ficaria desesperado em meu lugar.
	Pode ficar conosco, se quiser  Jill ofereceu.
	Esta casa no  uma penso. Alm disso eu tenho um colega: Teddy.
Ns temos um bangal em Sapphire Lake. Por que no se instala l por um ms, at se organizar?
A oferta era maravilhosa. Ela adorava o lago, e estavam no vero. Mesmo que tivesse de viajar todos os dias at a cidade para trabalhar, valeria a pena. Mas no queria abusar.
- Obrigada, mas estamos na alta estao. No quero priv-los da oportunidade de passar uns dias em sua prpria casa.
Jill olhou para as gmeas e sorriu.
	No tenho planos de viajar nesta temporada. J pensou no que eu teria de carregar de bagagem? Carrinhos de beb, banheirinhas... No. Eu prefiro ficar no conforto da minha casa.
	Ento eu aceitarei sua oferta, Jill. Voc salvou minha vida.
Mais uma ou duas semanas, e eu terei tempo de alugar alguma coisa.
	Eu lhe darei a chave assim que reunir foras para me levantar.  Jill bocejou.
	Estou reunindo a turma, esta noite  Stephanie comentou, de repente.

	Oh,  verdade. Eu ouvi dizer que voc reuniria um grupo de crianas para um campeonato de patinao  Kaitlyn comentou.
	Apenas uma desculpa para uma reunio. Posso contar com voc?
	Eu no patino h anos, Steph.
	Nem eu. Mas ser divertido.  Stephanie olhou para a criana em seu colo.  Esta tambm adormeceu, para fazer companhia  irmzinha e  me.
	Elas so adorveis  Kaitlyn murmurou , mas Jill est exausta.
	Os primeiros tempos so difceis  Stephanie concordou. 
 Mas no existe nada mais gratificante do que um filho. Voc ver, algum dia. Quer uma ajuda para a mudana?
	Acho que poderei me arranjar sozinha, obrigada. Afinal s terei de levar minhas roupas e objetos pessoais. Por falar no bangal,  verdade que Penn est querendo comprar as terras do velho Delaney?
A expresso de Stephanie permaneceu impassvel.
	As terras do velho Delaney?
	No se faa de desentendida. Eu conheo muito bem essa sua atitude. Significa que  verdade. Se no soubesse de nada, teria demonstrado surpresa. Para que ele a quer, afinal?
	No me contou.  Ela deu de ombros.  Sou apenas uma corretora de imveis. Acho que pretende construir uma casa.
	Por que aqui?
	Por que no aqui? Faltam moradias em Springhill. As pessoas fazem filas para comprar casas. Seria uma grande oportunidade para algum como Penn.
	Quer dizer que ele pretende construir uma casa para vend-la?
	Parece que sim.
Kaitlyn quase deixou escapar um suspiro de alvio. Andava muito apreensiva com a ideia de ter Penn permanentemente na cidade,
	No estou surpresa. Penn no  homem de fincar razes em lugar algum. Duvido, inclusive, que fique por aqui o tempo necessrio para que o construtor termine a obra.
	Ele no contrata construtores, Kaitlyn. Ele mesmo cuida de todo o processo. Tem se dedicado  construo de casas h anos.
Kaitlyn pestanejou, incrdula.
	Ele faz tudo sozinho?
	No o trabalho pesado,  claro.
	Em que lugares?
	Por todo o pas. Constri as casas, vende-as e se muda.
	E quanto s outras estranhas ocupaes a que se dedica, de que tanto ouvi falar?
	Provavelmente  tudo verdade. Ningum sabe ao certo.
	Um comportamento tpico de Penn. A maioria das pessoas teria escolhido um lugar para se estabelecer.
	Penn no  a maioria das pessoas, Kaitlyn. Com a herana que seus pais lhe deixaram, ele no precisa lutar pela prpria sobrevivncia. Admiro-o por trabalhar. Outro, talvez, preferisse a boa vida. Pense nisso, querida.
Depois de um dia exaustivo com os acertos finais para a festa de Laura McCarthy, Kaitlyn se preparou para ir para casa e arrumar sua mudana.
Ao abrir o porto, a primeira coisa que notou foi o silncio. O rangido das dobradias havia desaparecido por completo. Graas a Penn. Graas a ele, tambm, ela fora salva de ser trucidada por Sabrina e sua me por causa das fotos. No estaria lhe devendo um pedido de desculpas pelo modo como o andava tratando?
Certamente que no, decidiu. Se havia algum que devia se desculpar pelo mau comportamento era ele.
Sua me estava na cozinha, guardando potes e panelas em caixas.
	No sei mais onde colocar tanta coisa. Uma parte eu separei para voc levar.
Havia uma pilha sobre a mesa e Kaitlyn balanou a cabea.
	Eu-j tenho tudo o que preciso, mame. Meus utenslios esto no sto, lembra-se? Ns os colocamos l quando eu voltei a morar com voc.
Por um instante Audrey Ross pareceu surpresa.
	Oh, sim,  claro. Tem razo. O que sugere que eu faa?
No haver espao suficiente para tudo o que tenho, no novo apartamento.
	Stephanie ofereceu a garagem. Aproveite.
	Acho que vou seguir seu conselho.
Em seguida, Kaitlyn contou  me sobre o oferecimento de Jill para que ela ocupasse sua casa no lago at encontrar uma moradia.
	Ainda bem. Eu estava ficando preocupada.
O sto estava quente e empoeirado. Como sempre acontecia quando pisava l, Kaitlyn comeou a espirrar. Sua me havia feito um verdadeiro milagre no local. Onde antes havia desordem, agora se via pilhas de caixas etiquetadas, prontas para serem transportadas.
O nico canto que no demonstrava o mesmo cuidado era aquele que comportava as suas caixas. Na pressa de se mudar, escrevera apenas seu nome nas etiquetas, sem especificar o contedo. Azar o seu, agora, que no sabia o que deveria ou no levar.
O bangal de Jill era um dos menores da regio. Ao contrrio da bem equipada casa de vero de Stephanie, onde festas sofisticadas poderiam ser oferecidas, a de sua irm no suportaria mais do que um simples piquenique.
Se Kaitlyn pretendia viver l por um certo tempo, no poderia dispensar alguns itens pessoais. O problema seria onde encontr-los.
Talvez o remdio fosse levar todas as caixas. Se no as levasse, aquilo que mais precisasse poderia ter ido parar na garagem de Stephanie, junto com as coisas de sua me.
	Voc no vai ficar no sto a noite inteira, no ?  a me indagou subitamente, do topo da escada.
	Ainda no me decidi o que levar  Kaitlyn confessou.  Por qu?
	Penn me disse que vocs iriam patinar.
Isso teria sido antes ou depois da briga? No importava. Ela e Penn precisavam acertar alguns pontos.
Kaitlyn consultou seu relgio de pulso e decidiu tomar um banho rpido e refazer a maquiagem.
Penn precisava parar de fazer isso! Como se atrevera a dizer  sua me que iriam patinar, se nem ela ainda sabia? Do jeito que falara, at parecia que haviam marcado um encontro!
No deveria aparecer. Porm, se no fosse, teria de esperar dias e dias at surgir uma outra oportunidade.
A pista de patinao ficava entre o parque industrial da cidade e um novo shopping center. Como a frequncia no era grande s quartas-feiras, ela no teve dificuldade em localizar o grupo.
Penn estava de mo dada com a filha de Stephanie, provavelmente tentando convenc-la a acompanh-lo.
Kaitlyn pagou a taxa de admisso, entrou, e colocou os patins. As primeiras tentativas quase a fizeram desistir. Depois de alguns minutos, porm, equilibrou-se e deslizou. Patinar era como andar de bicicleta. Uma vez que se aprendia, nunca mais se esquecia. Levaria algum tempo,  claro, at que ela recuperasse a confiana em si mesma. Por enquanto, no se afastaria muito do gradil.
Penn fez um volteio  sua frente.
	No pensei que viesse depois daquela briga.
Ela ergueu o queixo em desafio.
	Eu nunca deixo de comparecer s reunies da turma, quando tenho oportunidade. No seria por sua causa.
	Pois eu pensei que tivesse vindo, tambm, para me dizer mais algumas coisas.
	Coisas que eu esqueci de mencionar esta tarde? A verdade  que eu no deveria ter dito nada. Sinto muito, Penn.
Naquele instante, colocaram uma msica que havia sido a favorita de Kaitlyn h dez anos.
Como nos velhos tempos, ela pensou. No se deixe levar pelo sentimentalismo, ordenou-se em seguida.
	Fico contente que tenha mudado de ideia.
	Espere um pouco. Eu no disse que tinha mudado de ideia, mas sim que no tenho nada a ver com a sua vida. Gostaria de lembr-lo, tambm, que voc no tem nada a ver com a minha.
	Absolutamente  ele confirmou.  E agora que estamos entendidos, que tal patinarmos juntos?
	No posso. Tenho de arrumar minha mudana.
	V embora e todos pensaro que brigamos.  Penn olhou ao redor.
Ela no havia levado esse detalhe em considerao. Talvez ele estivesse certo.
	Se ficar, poderemos patinar como dois velhos amigos. Marcus no se importaria, no ?
	Desde que no aparea por aqui de repente, envenenado por algum.
	Eu no o chamei  Penn se defendeu.  Afinal para que o quereria entre ns? Para nos atrapalhar?
	No pense que eu poderei me sair muito melhor do que ele nos patins. Estou sem prtica.
	Para recuper-la tem de largar as grades. Venha. Eu no a deixarei cair.
Ele sorriu e lhe apertou a mo. Logo aps os primeiros impulsos, ela sentiu que se soltava. No se lembrava mais do quanto era divertido deslizar e quase flutuar ao redor da pista.
Mantiveram-se afastados por algum tempo. De repente, sem que percebesse, suas mos unidas estavam pressionadas contra o peito dele.
O romantismo da msica e a vibrao que penetrava por seu corpo atravs do calor da mo de Penn trouxe de volta o passado com tanta fora que Kaitlyn no pde resistir.
Por sorte o ritmo da msica mudou, o vozerio dos patinadores diminuiu e ela e Penn puderam conversar novamente.
 Voc ainda se lembra de como patinvamos ao som de uma valsa?  Penn quis saber.
Como se ela pudesse esquecer algo que experimentara junto a ele! A situao estava se tornando cada vez mais perigosa. Se ela no quebrasse aquela espcie de encanto, estaria perdida!
	Como poderia esquecer? Da ltima vez voc se desequilibrou e passou sobre a barra do meu vestido mais caro, arruinando-o para sempre.
	Fiz uma pirueta. No perdi o equilbrio. O que aconteceu foi que voc no estava vestida adequadamente para a prtica.
Ainda bem que est de cala jeans hoje.  Ele apertou-lhe a mo.  Pronta?
S mais uma valsa, Kaitlyn decidiu, e em seguida irei para casa.
Ela havia esquecido o quanto era necessrio se concentrar para desenvolver os passos ao ritmo de uma valsa. Em um salo de baile, um erro significaria apenas um piso no p. Em um ringue, porm, qualquer erro poderia levar a uma perna ou a um brao engessado.
Devido  concentrao, Kaitlyn no havia notado que a multido se dispersara no decorrer da msica. Naquele instante, quando os dois finalmente pararam, aplausos e assobios os envolveram.
Kaitlyn sorriu e efetuou, automaticamente, um volteio de agradecimento que a levou ao cho.
Penn estendeu-lhe a mo.
	Eu estava pensando em lhe propor mais um pouco de treino para depois tentarmos uma polca. Mas se voc prefere descansar no cho...
	 o que eu deveria fazer. Estou sem flego.
Ele sorriu e ajudou-a a se levantar. Conforme outra msica era tocada, Penn a conduziu para o meio da pista e ela se esqueceu completamente de sua inteno de ir para casa.
Algumas msicas depois Kaitlyn ficou perplexa em notar que poucos pares ainda permaneciam na pista. Olhou para o seu relgio e pestanejou.
	No imaginava que fosse to tarde. Onde est Stephanie e o resto do grupo?
	Tiveram de levar as crianas embora.
Os dois se sentaram para tirarem os patins.
	H uma bolha em meu calcanhar  Kaitlyn comentou.

	Deixe-me ver.  Penn segurou-lhe o p e o apoiou sobre suas pernas.  Tem razo. Sua meia deveria estar furada.
	Obrigada pelo diagnstico, dr. Caldwell  ela zombou e tentou puxar o p.
Mas Penn o segurou com ambas as mos e comeou a mas-sage-lo. Seu toque era firme conforme trabalhava com os artelhos. Quando passou para a planta do p, ela tentou se soltar.
	Est me fazendo ccegas.
Mas Penn no deixou. Seus olhos cinzentos se prenderam aos dela e comearam a escurecer. O corao de Kaitlyn disparou.
	No  sussurrou.
	Um beijo s  ele implorou.  Em nome dos velhos tempos.
	No tente reviver aqueles dias, Penn. Eles se foram. Somos pessoas diferentes agora. Que as recordaes descansem em paz.
Ele a soltou de imediato. Sua expresso era de surpresa, e no de concordncia. Kaitlyn no perdeu tempo. Apressou-se a calar os sapatos, guardar os patins e se levantar.
Penn a deixara em paz, felizmente. Mas quanto tempo essa trgua duraria?

CAPITULO VI

A cafeteria do hotel era o ponto de encontro favorito de Kaitlyn. Era l que costumava levar seus clientes para a reunio final, um ou dois dias antes do casamento. As mesas eram grandes o suficiente para comportar toda a papelada. Alm disso, as omeletes eram as melhores da cidade.
Kaitlyn consultou as pginas que continham todos os detalhes importantes sobre o casamento de Laura McCarthy e transferiu algumas anotaes para sua agenda. Estava to concentrada em sua tarefa que no percebeu a aproximao de um homem.
	Ol, querida, posso me sentar?
A cortesia exagerada era uma atitude tpica de Marcus.
	Claro que pode. S que no estarei sozinha por muito tempo.
Estou aguardando um casal de clientes.
	Novos?  Marcus franziu a testa.
	No. Trata-se de discutirmos os ltimos detalhes da cerimnia que ser realizada no sbado.
	Ento ficarei com voc at eles chegarem.
Kaitlyn fechou as pastas e a agenda. Tudo bem. Ela j conhecia o contedo de cor, afinal de contas. Precisava deixar de ser to perfeccionista. Mas se relaxasse, incidentes como o que acontecera no casamento de Sabrina Hart seriam muito mais frequentes.
A perspectiva a fez se decidir a continuar trabalhando com o mesmo afinco.
	Que tal nos vermos depois que voc terminar de tomar o desjejum com os clientes? Eu no tenho nenhuma reunio marcada para esta manh.
	Pensei que seus amigos executivos ainda estivessem por aqui.
	Esto, mas recomendaram que eu sasse mais do escritrio.
Acham importante que eu seja visto na comunidade, que faa novos contatos. Talvez pudssemos ir ao clube e jogar golfe.

	Sinto muito, mas tenho um compromisso. Uma reunio preliminar com um casal que quer festejar em grande estilo suas bodas de ouro.	
	Foi voc quem sugeriu que eu tirasse uma manh de folga, de vez em quando, Kaitlyn.
	Mas eu no disse que estaria livre todas as manhs! Se voc tivesse me telefonado antes, eu teria dado um jeito, mas...
	Assim como deu um jeito de patinar ontem  noite? Marcus a interrompeu.
Todos os msculos do corpo de Kaitlyn enrijeceram ao tom frio daquela voz. Desejaria perguntar a Marcus como ele descobrira. Penn teria contado?
	Francamente, Kaitlyn, entre todos os passatempos a patinao deve estar em primeiro lugar na prefern-cia do povo.
O desprezo com que Marcus falou a ofendeu.
	Nao concordo. Acho que o boliche ganha o primeiro lugar.
E eu tambm o aprecio. Sinto muito se isso o aborrece, mas acontece que sou uma pessoa simples. Do povo, como voc diz.
Meu pai era operrio em uma fbrica...
	Desculpe, querida. No quis ofend-la. Mais tarde aprender a apreciar passatempos mais refinados. Eu a ensinarei.  Ele fez uma pausa.  Fez bem em procurar se distrair. Trabalha demais e precisa relaxar. Estou contente que tenha se divertido.
Foi imperdovel de minha parte perder o controle.  Marcus sorriu e apertou-lhe a mo.  Acordei irritado esta manh. Tive uma reunio importante ontem  noite no clube e o barulho insuportvel que uma turma de desocupados fez o tempo todo, na sala vizinha a que eu estava, me deixou com uma dor de cabea que no passou at agora.
Naquele instante, Laura e o noivo chegaram, poupando-a de uma resposta. Marcus se levantou e cumprimentou o rapaz.
	Muito prazer.
	Muito prazer. Meu nome  Jack Bailey.
	Eu estava de sada  explicou Marcus.  Jack Bailey?
Ento era voc e seus amigos que estavam dando uma festa ontem, no clube?  O olhar que ele endereou a Kaitlyn no poderia ser mais expressivo.
	Foi a despedida de solteiro de Jack  esclareceu Laura.
Kaitlyn examinou o jovem por cima do cardpio, que conhecia praticamente de trs para frente. Jack Bailey estava com uma aparncia pssima aquela manh, como se tivesse bebido demais e no dormido quase nada. Uma despedida de solteiro no meio da semana? Era estranho. Ou talvez nem tanto, pois a maioria da famlia e dos amigos de Jack eram de fora. A realizao da festa a poucos dias da<:asamento pouparia os convidados de se deslocarem duas vezes para Springhill.
O fato de ele pedir apenas uma xcara de caf confirmou suas suspeitas. E tambm o silncio. Dele e de Laura.
Terminada a refeio,.Kaitlyn abriu sua pasta.
	Receberam algumas confirmaes de ltima hora?
Laura imediatamente abriu a bolsa, de onde retirou um punhado de cartes. Kaitlyn os contou at chegar ao nmero final que entregaria, aquele dia, ao responsvel pelo bufe.
	No se esquea de apanhar seu fraque, Jack, e de recomendar aos padrinhos que faam o mesmo. Certifique-se de que os experimentem, tambm. As lojas especializadas em aluguel de roupas s vezes cometem erros, e ser mais fcil corrigi-los hoje do que no sbado.
	Sem dvida  respondeu o noivo.
	E voc j andou um pouco pela casa com os sapatos novos?
E j fez o teste do penteado e da maquiagem?  Ao assentimento da noiva, Kaitlyn sorriu.  Ento a nica coisa que devem fazer, a partir de agora,  relaxar.
Jack Bailey saltou da cadeira, deu um rpido beijo em Laura, e quase saiu correndo com a justificativa de estar atrasado para o trabalho.
Era bvio que a conversa sobre o aluguel das roupas para ele e para os padrinhos j havia sido esquecida.
	Eu lembrarei os padrinhos  Laura murmurou com um suspiro.
Kaitlyn notou que o clima no estava muito bom entre o casal e procurou ajudar.
	Est tudo bem entre vocs?
	Claro.  que Jack est com muitas coisas na cabea.
S que Laura no a fitou enquanto falava, e a resposta parecia mais uma tentativa de convencer a si mesma.
	Vocs brigaram.
A moa mordeu o lbio e acabou confessando:
	Ontem a noite.
Por causa da festa, era bvio. Se o barulho fora to grande que perturbara todos os demais scios do clube, a algazarra deveria ter passado dos limites. No era a primeira vez que algo assim acontecia.
	No d importncia  Kaitlyn aconselhou.  No sei de um nico casal que no tenha tido uma briguinha s vsperas do casamento.
	Verdade?
	Isso no significa que no tenham sido feitos um para o outro ou que no devam se casar, mas que esto tensos.
	Minha me disse que eu deveria ignorar o que aconteceu.
	Ela est certa.  Kaitlyn deu um tapinha no ombro de Laura.  s vezes os nervos explodem at dentro da igreja ou durante a lua de mel. Sorte a de vocs que isso tenha acontecido antes.
Laura deixou o restaurante mais calma e Kaitlyn ficou observando-a se afastar pela calada.
	O que no fao pelas minhas noivas  Kaitlyn falou consigo mesma. Talvez Marcus tivesse razo quando dizia que seria muito
difcil ela conseguir equilibrar sua vida particular com a profissional. Aps aquele final de semana, precisaria pensar com muito cuidado sobre o que deveria fazer.
Sua casa estava mais parecida com um depsito, com as caixas empilhadas at o teto. E ela precisou acrescentar mais algumas junto  nica parede livre, para poder ocupar a mesa.
Estendeu a lista de convidados para o casamento de Kathy Warren e comeou a enderear os convites. O evento no aconteceria antes de setembro, mas com tanta gente ela no queria facilitar.
	Um j foi. Agora faltam apenas quatrocentos e noventa e nove.
	Pela sua voz, essa deve ser a parte pior do seu trabalho  Penn falou s suas costas.
Kaitlyn deu um salto e largou a caneta.
Ele estava sem camisa aquela manh e sua pele bronzeada parecia mida e perfumada, apesar do p e de algumas manchas de graxa.
	Todos esses convites so para o seu casamento?  Ele se inclinou sobre a mesa.
	Que droga, Penn! Claro que no! E no se atreva a tocar neles!
	Pensei que fossem e queria ter certeza de que meu nome no seria esquecido.
	Eu nunca o esqueceria  ela grunhiu.
	Agradeo.  Penn sorriu e fez uma reverncia.  Assim no terei de perseguir o carteiro, todos os dias.
O que ele certamente faria, se continuasse em Springhill at o acontecimento. Mas ela no queria pensar nessa possibilidade, ao menos por enquanto.
	O que andou fazendo? Parece que caiu em uma mina de carvo!
	Quase  ele admitiu.  Estou limpando o poro para sua me. Ela no sabia o que fazer com os restos de tintas e de madeiras que seu pai deixou.
	Oh, ento  seu o caminho de entulho que est bloqueando a entrada da minha casa?  Ela deveria ter imaginado. Se Penn trabalhava com construes, precisaria ter um.
	Preferiria que estivesse bloqueando a sada?  Ele lavou as mos na pia e se serviu de gua gelada. O movimento de seu brao ao levar o copo  boca a perturbou. Ele era um homem forte e musculoso e estava seminu  sua frente.
	Audrey disse que eu poderia ficar com aquilo que me interessasse  Penn continuou.
	Quer dizer que tambm est virando um sucateiro, agora?
 Kaitlyn indagou sem erguer os olhos.
	Quem sabe?  Ele se levantou e abriu a geladeira.  Voc e Audrey se esqueceram que precisaro comer mesmo tendo de realizar uma mudana? Mas, apesar do parco contedo, terei de assalt-las. Afinal estou com fome e ainda no recebi meu pagamento pelas fotos.
	Eu lhe ofereci o preo de mercado.
	No me subestime, Kitten. Se eu no a tivesse salvo, a sra. Hart teria feito picadinho de voc. Isso deve valer bem mais do que um pagamento padro.
	Ento me mande a conta para podermos negociar.
	Tudo bem. Vamos comear por um milho de dlares.
	Acho que tenho uma nota de vinte em minha carteira  ela respondeu, como se no o tivesse ouvido.   pegar ou largar.
Penn retirou duas fatias de presunto da geladeira e uma de po.
	Falando srio, voc se importa se eu levar algumas das ferramentas do seu pai?
	Por que me importaria?
	Pensei que Marcus pudesse quere-las.  Penn deu de ombros.
Kaitlyn se recusou a se irritar. Se Penn preferia acreditar que nenhum homem poderia ser msculo sem se dedicar a trabalhos pesados, o problema era dele e no dela.
	No creio que Marcus j tenha pisado alguma vez no poro desta casa. Nem sabe o que contm. Voc pode, portanto, levar o que quiser. Apenas no se esquea de abater os valores daquilo que estou lhe devendo.
Penn estalou os dedos.
	Encontrei a sada! Espere at ouvir o que tenho a propor...
	Diga.
	Voc e Marcus precisaro de um lugar para viver depois que se casarem, no? Acontece que eu acabo de adquirir uma linda propriedade.
Isso significava que ele realmente fechara o negcio. No era de se admirar, portanto, que Stephanie no tivesse tido tempo de se lembrar de que ela precisava de um apartamento.
	E quer que compremos uma casa construda por voc. No, obrigada.
	Eu deduziria o preo das fotografias sem que Marcus sou besse.
	Estou comovida  Kaitlyn ironizou , mas realmente no estaremos interessados em comprar uma casa at daqui a dois anos pelo menos.
	Por qu? Por acaso Marcus no est bem de finanas?
	No se trata disso. Apenas no decidimos ainda o tipo de vida que iremos levar.
	Entendo. Precisam pensar se querem ou no filhos. Voc quer?
	No vou discutir essa questo com voc.
	Uma pena. A casa, quero dizer. Eu gostaria de construir algo para algum que conhecesse, para variar.
	Geralmente no sabe quem ir morar em suas casas?
	Nunca soube at as casas ficarem totalmente prontas.  por isso que afirmo que seria interessante projetar os ambientes, tendo as preferncias do cliente como base. Pense em minha oferta, Kitten. Ser a nica maneira de ter sua casa como realmente deseja.
Kaitlyn o fitou, surpresa.
	Que diabos est querendo dizer?
	No me diga que ainda no percebeu? Marcus a trata como se fosse uma boneca. Linda, graciosa e sem vontade prpria.
	Voc est sendo ridculo!
	Acha que ser voc quem cuidar dos planos para o casa mento, no?
	 claro que sim, depois de consultar Marcus.
	E ele concordar com tudo at sentir que os seus planos
interferiro com os dele. Nesse ponto, aposto que bater o p. A lua de mel, por exemplo...
	E como voc pode saber sobre minha lua de mel?
	Eu sei. Falei com Marcus ontem a noite e ele j se decidiu.
Kaitlyn no gostou do que ouviu.

	Pensei que voc no fosse mais se intrometer na minha vida.
	No me intrometi. A festa de despedida de solteiro que estava acontecendo no clube deve ter inspirado seu noivo a nos contar. E por falar em Marcus, sua me no gosta dele.
	Aprendeu a ler os pensamentos alheios, tambm?  Kaitlyn o desafiou, irritada.
	No. Ela me disse.
	 timo que vocs dois sejam to ntimos. Devo preveni-lo, contudo, de que mame anda meio confusa ultimamente. Ainda ontem ela veio com uma conversa de que voc pretende conservar sua cabana no lago para algum dia reunir seu cl. Eu quis saber de que cl ela estava falando, mas...
As palavras foram ditas antes que Kaitlyn parasse para refletir. Somente ao ver que os olhos cinzentos se toldaram, ela reconheceu o quanto estava sendo cruel, lembrando-o de sua solido.
	Sinto muito, Penn.
	Por que desculpar-se por dizer a verdade? Fatos so fatos.
E quanto  sua lua de mel? Quer que eu lhe conte para onde ir?
	Claro que quero.
Penn atravessou a cozinha e a segurou pelo queixo, obrigando-a a encar-lo. Ela no tentou fugir.
	No espere um beijo pela informao  murmurou.
Ele sorriu e beliscou-lhe a ponta do nariz.
	Bermuda.

	No ms de fevereiro?  Ela arregalou os olhos.  Mas  muito frio! Marcus deveria estar se divertindo  sua custa.
	Negativo. Marcus no  capaz desse tipo de brincadeira.
Pode me agradecer. Ao menos no ser pega de surpresa quanto s roupas que dever levar.  Ele comeou a preparar outro sanduche.  A no ser que Marcus no pretenda deix-la sair do quarto. No lugar dele, e se tivesse ficado louco, eu no deixaria. Ele a fitou sobre o lanche de po de centeio com queijo e presunto e ela estremeceu.
	Mas voc est completamente so.
Kaitlyn ainda no havia organizado um ensaio de casamento em que todos chegassem na hora marcada, e o de Laura McCarthy no foi uma exceo. Ela nunca havia se importado em esperar um pouco, mas aquela noite foi diferente. Comprometera-se para um jantar com Marcus e no estava disposta a mais uma discusso.
Assim que o ltimo retardatrio surgiu, ela iniciou imediatamente o ensaio.
	Cada convidado receber uma vela ao entrar na igreja. No final da cerimnia, logo aps os votos, Laura e Jack acendero uma nica vela grande e sopraro as duas pequenas que estaro a seus lados. Em seguida, os quatro padrinhos se aproximaro e acendero suas velas a partir daquela dos noivos. Descero do altar rumo  nave central, onde acendero a primeira vela de cada fileira de bancos. Os convidados passaro a chama, um por um, at que todas as velas estejam iluminadas.
	Que bobagem!  exclamou a me de Laura.
Laura franziu a testa, mas Kaitlyn achou melhor fingir que no havia percebido.
	Terminada a cerimnia, todos sopraro as chamas.
Foram necessrias vrias repeties at que todos os presentes decorassem seus lugares, at que as damas de honra aprendessem a caminhar lentamente, e que os padrinhos ensaiassem o ritual das velas.
No final, os ps de Kaitlyn doam terrivelmente, fazendo-a arrepender-se por no ter vestido as calas compridas de sempre e sapato baixo. Mas ela quisera colocar um vestido bonito para o jantar com Marcus.
Felizmente poderia sentar um pouco e relaxar. Chegara a vez do pastor assumir o comando do ensaio. Seus pensamentos fugiram por alguns momentos. Forou-se a se concentrar nos detalhes, mais uma vez, no instante em que o pastor estava dizendo:
Voc, Laura, aceita este homem como seu legtimo esposo para am-lo e honr-lo...
Kaitlyn sentiu o corao disparar ao notar que Laura empalidecia. Em seguida, ouviu claramente a resposta.
	No.
A palavra reverberou por toda a igreja, desde o teto at o piso de pedra.
Laura ergueu o queixo e olhou fixamente para seu noivo.  
	No. No aceito.

CAPITULO VII

Isto no pode estar acontecendo, Kaitlyn pensou. -Cenas como esta s acontecem em filmes. Ningum desmancha um casamento na igreja. Ningum se pronuncia quando o padre pergunta se existe algo contra a realizao do matrimnio.
Levou alguns segundos para se recuperar do choque. Quando conseguiu, notou que as mos de Laura estavam tremendo ao redor do buque de flores plsticas, que ela lhe entregara para efeito de ensaio. Alis no eram apenas as mos que tremiam, mas o corpo inteiro. Laura parecia prestes a sofrer um abalo nervoso.
Dirigiu-se a ela quase que no mesmo instante que sua me, mas o pastor foi mais rpido.
	Laura e Jack, estarei esperando-os em minha sala. Os demais devero aguardar aqui. Creio que ser melhor resolver o assunto em particular.
A me de Laura sentou-se no cho do altar e escondeu o rosto entre as mos. A me de Jack lhe endereou um olhar glacial.
	Estou indignada. Jamais presenciei um comportamento to abominvel em toda a minha vida.
	No vamos piorar a situao, est bem?  Kaitlyn murmurou.  J imaginaram se os dois se acertarem l dentro, e virem suas famlias em guerra quando sarem?
As damas de honra e os padrinhos continuavam em suas posies. Kaitlyn lhes fez um sinal para que se dirigissem ao primeiro banco e se sentassem.
A conferncia na sala do pastor poderia levar minutos, mas tambm horas, e ela no sabia se deveria ou no bater na porta, depois de algum tempo, para averiguar o que estava se passando. Se o casamento estivesse fora de questo, o melhor seria mandar todos para casa. Mas, e se ainda restasse uma esperana?
Consultou seu relgio de pulso e suspirou. Deveria encontrar Marcus e os dois executivos dali a quinze minutos. Ele ficaria uma fera! Mas, afinal, j o havia informado, por vrias vezes, de que a durao dos ensaios era imprevisvel.
De repente se viu imaginando o motivo real que levara Laura e Jack a brigarem. A despedida de solteiro, como pensara originalmente, ou outra coisa? A razo no seria mais sria do que uma simples tenso nervosa?
Kaitlyn teve meia hora para levantar as hipteses e compilar uma nova lista de afazeres. Nunca tivera de cancelar um casamento antes.
Inquieta, estava se levantando para tentar descobrir o resultado da entrevista, quando o pastor saiu de sua sala acompanhado por Laura. Jack se encontrava atrs dos dois. Ele se deteve ao p do altar e olhou para todos os presentes.
	Aps as devidas discusses, eu cheguei  concluso de que no haver casamento neste templo, amanh. Quero deixar bem claro que a deciso no foi tomada pelos noivos, mas por mim, pois minha conscincia no me permite uni-los sob as atuais circunstncias.
Acontecera exatamente o que Kaitlyn estava esperando. Um cancelamento, e tambm uma tentativa cavalheiresca do pastor em aliviar a culpa de Laura e de Jack.
A me de Jack se levantou, ofendida.
	Vamos embora, filho. Eu estava certa em no querer que se casasse com ela!
Jack se desvencilhou da mo que o segurava pelo brao. Por um momento, conforme se voltava para Laura, Kaitlyn prendeu a respirao. Ele pediria perdo? Suplicaria a Laura que reconsiderasse sua deciso?
	O que aconteceu s diz respeito a mim e a Laura. A senhora est louca se pensa que vai passar a dirigir minha vida por causa disso.
Sem esperar pela resposta, ele marchou para fora da igreja.
Kaitlyn pediu licena para usar o telefone da sala do pastor. Precisava avisar Marcus. A conversa no seria agradvel, mas ele tinha de saber que ela no tinha outra escolha, exceto permanecer ao lado da cliente.
Depois que explicou o sucedido, fez-se silncio do outro lado da linha. Em seguida, Marcus falou com raiva.
	O que espera que eu diga aos homens? Acabei de justificar seu atraso com a desculpa de que estava ajudando uma amiga, mas que no demoraria a chegar.
	Conte a verdade.
	Que verdade? Que seu trabalho  mais importante do que a promessa que me fez?
	No confunda as coisas, Marcus. Eles, como profissionais que so, sabem perfeitamente que os negcios muitas vezes interferem com nossas vidas pessoais. Ou isso s vale para os funcionrios da Turfmaster?
	No h necessidade de sarcasmo, Kaitlyn.
	Do jeito que voc fala, parece que no aconteceu nada de importante.  Ela se deteve de repente.  Espere um minuto.
Voc alegou que eu estava ajudando uma amiga?
Marcus pigarreou.
	Achei que seria melhor do que dizer que voc deu mais importncia ao seu compromisso do que ao nosso.
^- Isso significa, ento, que no lhes contou que eu j havia me comprometido com a cliente antes de voc marcar o jantar? Silenciou at esta noite e inventou uma desculpa esfarrapada?
	No foi bem assim, querida...
	Por-que no lhes disse que eu no sou esperta o suficiente para me aprontar em tempo? Teria sido mais fcil!
Ela bateu o telefone e ficou parada por algum tempo, olhando para o anel de diamante em sua mo direita. Quando voltou para o santurio, sentiu-se mais solidria com Laura McCarthy. O que quer que estivesse por trs da deciso da garota, ela tivera muita coragem.
Estava de p no altar, sozinha. Os padrinhos, as damas de honra, as famlias, todos haviam se retirado, inclusive o pastor. Cabisbaixa, segurava o buque plstico como se ele fosse realmente o lindo arranjo de aucenas que deveria carregar no dia seguinte...
O buque, Kaitlyn pensou. Mais um detalhe a ser cancelado, depois de toda a frustrao que passara por no ter conseguido os copos-de-leite...
	Voc deve estar zangada comigo  Laura sussurrou.
	No.
Os olhos da jovem se ergueram, surpresos. E Kaitlyn reconheceu, para sua surpresa tambm, que fora sincera.
	Ningum deve se casar se no estiver bem segura daquilo que vai fazer. E voc obviamente no est.
Laura comeou a chorar.
	Eu pensei que voc tambm tivesse ido embora. Est aborrecida comigo?
	Claro que no. Estou aqui para ajud-la.
	Minha me me deixou. Ela se recusou a me ajudar. Disse que eu deveria, ao menos, esperar at amanh.
	Antes de comear a providenciar todos os cancelamentos, voc quer dizer? Provavelmente ela espera que voc reflita mais um pouco.
	J refleti o bastante.  Laura esboou um sorriso, pela primeira vez.  Eu tinha me decidido a dar mais uma chance ao meu casamento, especialmente depois de nossa conversa sobre tenso nervosa. Mas quando o pastor perguntou, eu soube que no poderia.
	Melhor que tenha acontecido hoje, do que amanh  Kaitlyn afirmou.  Temos uma poro de coisas para fazer. Em primeiro lugar, vou telefonar ao bufe e  florista. Em seguida, passaremos para a lista de convidados.
As luzes comearam a ser apagadas e o pastor retomou ao altar.
	Gostariam de ficar por aqui para conversar mais um pouco?
Posso lhes deixar uma chave.
	Obrigada. Eu levarei Laura para minha casa.
Quando chegaram, Audrey estava preparando uma xcara de ch na cozinha que parecia ter sido palco de uma revoluo. Sua expresso confusa fez com que Kaitlyn lhe explicasse o sucedido, antes de subir para trocar de roupa.
	Foi to embaraoso  Laura estava soluando, deitada no sof da sala, com a cabea no colo de Audrey, quando Kaitlyn retornou.  Minha me queria que eu me casasse de qualquer jeito. Disse que eu deveria aceitar a vida como ela . Disse, tambm, que todas as despedidas de solteiro exibem danarinas exticas e que todos os homens fazem esse tipo de coisa quando tem oportunidade.
	Que tipo de coisa?  Kaitlyn indagou, involuntariamente.
	Ela no te contou?  Audrey a interrompeu, seca.  A dana foi na verdade um show imoral, do qual Jack participou com o maior descaramento.
	No clube?  gritou Kaitlyn.
Audrey confirmou.
	Se o que voc disse for confirmado, falarei com Marcus para que Jack seja expulso da sociedade.
Mas no seria apenas sobre Jack que Kaitlyn falaria com o noivo, no dia seguinte. Havia muita coisa em jogo. Por enquanto, tudo o que sabia, era que a conversa no seria nada agradvel.
Era meia-noite quando Kaitlyn e Laura terminaram de efetuar as ligaes para os convidados que viriam de outras cidades. Como nada mais poderia ser feito a o dia seguinte, Audrey preparou uma cama extra no quarto da filha, j que o quarto de hspedes estava atulhado de caixas e fez com que Laura se deitasse.
Voltou para a sala, resmungando:
	Como se o dinheiro de um homem pudesse torn-lo um bom marido! Como seria bom se os filhos ouvissem os pais!
Mas cada vez que tentamos faz-los mudar de ideia, parece que tudo d errado...  Ao deparar com Kaitlyn, pestanejou como se tivesse esquecido de que no estava sozinha.  Acho que vou preparar mais um pouco de ch. Voc quer uma xcara?
Penn estava certo, Kaitlyn reconheceu. Sua me no gostava do Marcus. No comentara a respeito porque no acreditava que
os pais devessem tentar mudar a opinio dos filhos, ou talvez porque soubesse que qualquer tentativa de influenci-la pioraria a situao. De qualquer modo, ela estava convencida de que o casamento seria um erro...
E quanto a mim?, Kaitlyn se perguntou. O que eu penso?
Deitou-se sem conseguir uma resposta para a questo e quando se levantou, o sol mal havia surgido. Laura continuava dormindo na cama a seu lado. Apesar de estar com as sobrancelhas contradas, como se os sonhos a torturassem, no a acordou.
Vestiu seu penhoar, calou os chinelos e desceu para telefonar ao pastor, Precisava que ele mandasse colocar um aviso na porta da igreja porque seria impossvel comunicar o ocorrido a todos os convidados, em tempo hbil.
Em matria de cancelamento, o pior seria o bolo. Apesar das inmeras tentativas, ela no conseguira se comunicar com o confeiteiro. Com relao s veias, as caixas j haviam sido entregues na igreja, e estavam prontas para serem acesas e simbolizar a luz do amor.
Teddy se ps a latir no jardim e ela abriu a porta para deix-lo entrar. Deparou com meia dzia de homens diante de um caminho.
 Viemos buscar a mudana da sra. Ross  explicou um deles.
Sua me no havia dito uma palavra que se mudaria naquela manh, havia? No conseguia se lembrar. Afinal aquela no fora uma semana fcil. Metade da cidade poderia ter sido destruda por uma bomba ou por um incndio, e ela no teria notado.
Assim que ouviu a voz da me instruindo os homens, voltou a se concentrar em sua lista. Depois de uma hora j havia se acostumado com o vai e vem do pessoal, entre a casa e o caminho.
Laura havia descido. Levantara-se mais calma aps o breve descanso e assumira o lugar de Kaitlyn ao telefone. Quem no se sentia muito calma, agora, era Kaitlyn. Cogitava o que fazer com um bolo destinado a servir trezentas pessoas, quando Marcus chegou.
Ele olhou para o caos em que estava a cozinha e em seguida encarou-a.
Estou decepcionado, Kaitlyn.
Ela permaneceu em silncio. Todo o movimento da casa, todos os rudos haviam deixado de existir. S existia Marcus naquele momento, com seu rosto atraente, porte arrogante e olhos frios e inquiritivos.
Aps o que acontecera na noite anterior, ela pensou, era inconcebvel que ele no a tivesse desculpado. Por mais que fosse culpada, ele poderia ter se colocado momentaneamente em seu lugar, no? E ela no se considerava culpada.
Foi nesse instante que Kaitlyn soube exatamente o que Laura sentira na noite anterior.
Olhou ao redor da cozinha e deu de ombros.
	Creio que no entendi, Marcus. Daria para ser mais direto?
O que o decepcionou? O modo com que eu e minha me encaixotamos as coisas? O fato de no termos contratado uma empresa famosa de mudanas? A impossibilidade de ligar para minha casa esta manh? Ou...
	A roupa que est usando, por exemplo.
Kaitlyn havia se esquecido do penhoar curto e transparente. Agora que Marcus o mencionara, lembrava-se de ter detectado alguns olhares estranhos por parte dos carregadores.
	Suba e troque de roupa neste instante.
Se ele no tivesse ordenado, Kaitlyn teria se desculpado e corrido para o quarto. Mas o modo autoritrio, com que Marcus falou, a deixou furiosa.
	Por qu?
	Porque no d para conversarmos no meio desta baguna.
	Oh, ento admite que temos que esclarecer alguns pontos?
E simplesmente decidiu passar por aqui, sem levar em considerao que o horrio poderia no ser conveniente para mim?
	Eu no poderia ter marcado um encontro, poderia?
Ela no argumentou, pois quanto a isso Marcus estava totalmente certo.
	Sinto muito, Kaitlyn  Laura murmurou ao telefone.  J lhe dei muito trabalho. Acho que posso me arranjar sozinha de agora em diante.
	Afinal o casamento era seu, Laura, e  sua obrigao participar o ocorrido aos parentes e amigos  Marcus comentou.
Kaitlyn no esperou que o noivo repetisse a ordem para se vestir. No era s ele que tinha assuntos importantes para discutir. E o quanto antes, melhor.
Subiu para o quarto em silncio, mas sabia que estava irritada. Foi por pura provocao que ignorou o palet e gravata que Marcus estava usando, e escolheu uma cala jeans e uma camiseta. No se maquiou. Escovou os cabelos e prendeu-os na nuca com uma fita. Para completar, calou suas velhas sapatilhas de lona.
Marcus pareceu contrafeito ao v-la.
	Estava pensando em lev-la para almoar no clube, mas com essa roupa que colocou...
	Sinto muito, pensei que voc estivesse com pressa. Por que no me leva a um restaurante de estrada, desses onde os caminhoneiros param? Aposto que ningum o reconheceria.
Ele enrubesceu e respirou fundo para se controlar. Kaitlyn se arrependeu imediatamente do que fizera. O melhor seria acabar logo com aquela conversa. Com calma e dignidade. Sarcasmo s pioraria a situao.
	Desculpe, Marcus. Eu no deveria ter me comportado como me comportei.
Ele a conduziu gentilmente ao Mercedes.
	Eu a compreendo, querida. Tem passado por momentos difceis nos ltimos dias.  Ele deu a volta e se instalou no banco do motorista.  Mas quero alert-la de algo. Se tornar a bater o telefone na minha cara, ficarei muito triste.
	No farei mais isso  Kaitlyn prometeu.
Marcus a levou  cafeteria do hotel e pediu duas omeletes e dois cafs. Kaitlyn segurou a xcara com ambas as mos, como se precisasse do calor que dela emanava, para criar coragem. Sentia-se repentinamente exausta. Toda a adrenalina, que fora descarregada em sua corrente sangunea na noite anterior, parecia ter sido consumida.
	Que confuso aprontou aquela garota  Marcus balanou a cabea.
Kaitlyn pensou em lhe perguntar sobre o que realmente havia acontecido durante a ruidosa festa de despedida de solteiro, mas decidiu em contrrio. A verdade no faria com que Marcus passasse a apoiar Laura. Apenas faria com que sentisse mais raiva ainda de Jack Bailey. No por causa de seu comportamento indigno,  claro, mas porque ousara infringir as leis do clube e perturbar sua reunio de negcios.
	No entanto  ele continuou , eu serei eternamente grato a ela, se o que houve serviu para lhe abrir os olhos.
	O que est querendo dizer?  Kaitlyn quase engasgou.
	Seu ramo de negcio e os problemas que dele decorrem.
O cancelamento, por exemplo. Aposto que ter de processar os noivos para receber o que lhe devem.
	Se acha que vou causar mais esse desgosto a Laura est muito enganado.
	Qualquer profissional me daria razo, Kaitlyn. Voc fez seu trabalho e tem todo o direito de receber o pagamento. No  sua culpa que o casamento tenha sido cancelado. S que voc no  uma boa administradora. Nem em relao s finanas, nem em relao a seu tempo livre. E seu apego excessivo s pessoas tambm impede que se torne uma profissional de sucesso.
	Eu no tenho um instinto assassino,  isso?  Kaitlyn indagou, fitando-o sobre a borda da xcara.
	Est exagerando.
	Pois eu tenho orgulho em no ser fria e calculista como voc sugere.  Ela se deteve em seguida. No valia a pena prolongar o assunto. No estava ali para discutir sobre negcios.
	Marcus, eu fiquei muito magoada, ontem a noite, quando me disse que mentiu aos seus colegas.
	Kaitlyn...
	Sei que voc queria causar uma boa impresso, mas o esquema no funcionou, no ? Voc os fez pensar que eu sou uma mulher irresponsvel e inconsequente.  Ela respirou fundo.
	Admito que errei ao marcar dois compromissos quase ao mesmo tempo, mas foi a primeira vez que isso ocorreu. No acha que teria sido prefervel contar a eles sobre meu trabalho?
	No fosse por ele, ns no teramos nenhum problema.
	O problema no est em meu trabalho, Marcus, mas em ns, em nossos pontos de vista diferentes.  Ela girou o anel no dedo e retirou-o. Marcus no o aceitou de volta.
	No seja melodramtica, Kaitlyn. Romper um noivado  algo muito srio.
	Eu sei.
	E um gesto infantil para se chamar a ateno.
	Pensei muito, Marcus. Por favor, acredite em mim. No se trata de um gesto irrefletido, nem infantil.
O anel parecia pesar como chumbo, mas Marcus no o retirava de sua mo.
	No  porque Laura resolveu recuar em sua deciso de se casar, que voc precisa fazer a mesma coisa.
	Marcus, pegue o maldito anel!
	No  ele respondeu, firme.  Voc est cansada e zangada, e eu admito que errei ontem a noite. No podemos romper nosso noivado por um motivo to banal.
	No  banal para mim.
Kaitlyn largou o anel dentro do cinzeiro e se levantou no momento exato em que a garonete chegava com as omeletes fu-megantes. Fossem outras as circunstncias, ela teria se sentado novamente, pois estava morrendo de fome, mas no eram.
	Se me der licena, tenho muito a fazer antes de me mudar esta tarde.
A deciso a surpreendeu, mas fazia sentido. Ela tinha a tarde livre. Assim que os homens terminassem de carregar a mudana de sua me, pediria que carregassem tambm a sua. Afinal ela tinha pouqussimas coisas.
	Nossa conversa ainda no terminou.
	Para mim est encerrada.  Ela se dirigiu para a porta.
Marcus apanhou o anel, depois de limpar a boca meticulosa mente com o guardanapo,  claro, e a seguiu.
	Voc est nervosa, Kaiilyn. Ningum pode tomar decises razoveis no calor de uma discusso.
"Ele a trata como uma boneca sem vontade prpria". As palavras de Penn ecoaram em sua mente.
Kaitlyn abriu a bolsa em busca da chave do carro. S ento se lembrou de que viera com Marcus.
	A propsito, para onde voc teria me levado em viagem de lua-de-mel?
	Isso faz alguma diferena?  Ele pestanejou.
	Curiosidade apenas.
	Bem, eu sempre desejei conhecer Bermuda.
	Fevereiro em Bermuda.  Ela riu e tornou a fechar a bolsa, preparando-se para abrir a porta do restaurante.
	Eu no vou tolerar que voc continue me tratando desse jeito, Kaitlyn. Se abrir essa porta, est tudo acabado.
	Mas  essa a ideia.  Ela se virou  por um instante sentiu pena de Marcus. No havia raiva em seus olhos, nem ressentimento. Apenas confuso.
Por mais cansada que estivesse, porm, Kaitlyn se sentiu revigorada ao chegar  calada e se dirigir  parte residencial da cidade.
A noite sempre parecia chegar mais cedo na regio do lago do que na cidade, por causa das montanhas e das rvores. At a ltima caixa ser descarregada no chal de Jill, a lua j brilhava sobre as guas escuras e tranquilas.
Ela examinou o local e sentiu que fraquejava. A desordem era tanta que ela nem conseguia enxergar a porta do nico quarto. E seu carro ainda estava cheio de roupas. Onde estariam as provises? Conseguiria preparar um sanduche, ao menos?
E depois? Conseguiria encontrar os lenis para fazer a cama? O chal estava frio e mido, como se no fosse usado h muito. Talvez precisasse encontrar um cobertor, tambm.
Uma lareira acesa faria maravilhas com o lugar e com seu estado de esprito, mas onde ela acharia foras para procurar um feixe de lenha?
Pressionou o boto para acender a luz da sala. A lmpada brilhou por uma frao de segundo e se apagou. Kaitlyn praguejou em voz alta. A maldita lmpada era ua principal fonte de luminosidade. Como iria troc-la, se no alcanava no teto, nem vira uma nica escada por perto? E naquela escurido, o que poderia fazer?
 Por que no fiquei com uma caixa de velas de Laura? 
resmungou.  Ela nunca conseguir usar todas, nem que viva cem anos!
Chamou Teddy e abriu a porta do fundos. Mataria dois coelhos com uma nica cajadada. Levaria o cachorro para passear e pediria uma escada emprestada ao vizinho mais prximo. Penn Caldwell.
No fazia parte de seus planos procur-lo to cedo. Gostaria que o encontro fosse casual, quando tivesse de lhe contar que estava morando provisoriamente no chal de Jill, mas ela no poderia ficar no escuro at o dia seguinte.
Com um pouco de sorte, Penn poderia ter sado, dando-lhe a desculpa perfeita por no t-lo avisado sobre a mudana antes dos outros vizinhos. Mas havia um carro  sua porta, & tambm o velho caminho. No era novo nem luxuoso, mas estava em bom estado. O que mais lhe chamou a ateno, entretanto, ao se aproximar, foi o cheiro de churrasco.
Ele est com visitas, Kaitlyn pensou. Excelente! Pareceria que ela no era capaz de resistir  curiosidade de saber com quem ele se encontrava!
Circundou lentamente a casa e no viu ningum no quintal. De uma grelha, porm, espalhava-se um pouco de fumaa. Kaitlyn se deteve e olhou em direo ao lago, onde a nica luminosidade provinha de ocasionais vagaiumes.
Talvez ele estivesse sozinho, afinal de contas. Ou os visitantes estivessem dentro da casa.
	O que a traz aqui?  Penn indagou do terrao, deitado em uma rede, com as mos cruzadas sob a nuca.
	Oi.
Quanta originalidade em seu cumprimento! Estava se comportando como se ainda tivesse dezesseis anos e quisesse impression-lo. S que o passado havia ficado para trs.
Foi naquele instante que reconheceu a verdade. Queria que o passado voltasse. Queria reviver os velhos dias em que Penn havia sido o centro de sua vida.

CAPITULO VIII

Era uma tola. Ansiar pela volta daqueles dias de vero significava pedir para sofrer a mesma decepo. Apesar de Penn ter sido o centro de sua vida, ela nunca fora o centro da dele.
No. No podia querer conscientemente a repetio do que acontecera. Aquilo era apenas um momentneo ataque de nostalgia e de insegurana. Em questo de algumas semanas tivera de passar pela mudana da casa onde crescera, por problemas no trabalho, e pelo rompimento de seu noivado com Marcus. E, para completar, estava exausta e faminta.
No se deixe enganar, ordenou-se.  fcil olhar para trs e s enxergar as coisas boas. E no se deixe envolver pelas dificuldades do momento, pensando que Penn tem algo a ver com esse sbito arroubo de solido.
	Quanto tempo pretende ficar a parada, no escuro, sem dizer nada?
Ela agradeceu mentalmente por ele t-la lembrado do que viera fazer.
	O meu problema  exatamente esse: o escuro. Estou  procura de uma lmpada de cem velas e de uma escada. O chal de Jill est um breu.
	Deixe-me pensar onde poderamos encontr-las.  Ele fechou os olhos como se fosse dormir.
	No pense demais  ela ironizou.  No quero que queime seu crebro por minha causa. Se for lhe dar muito trabalho me emprestar uma escada, poderei recorrer a outro vizinho.
Penn no deu importncia  sugesto.
	Lembrei. H uma no galpo.  Ele desceu da rede.  Vou busc-la.  muito pesada para voc.
Penn no apenas emprestou a escada, mas tambm trocou a lmpada.
	Seremos vizinhos por algum tempo  Kaitlyn informou, tentando parecer casual.  At eu encontrar um lugar na cidade.
Dada a explicao, ela se dirigiu  cozinha e comeou a desempacotar os alimentos, em busca do po e do pote de manteiga de amendoim.
Penn parecia no ter pressa para ir embora.
	No v se esquecer do seu churrasco. Estava cheirando bem demais para deix-lo queimar  ela comentou, a boca cheia de saliva.
Ele olhou para seu relgio de pulso.
	Mais trs minutos e estar-perfeito. Por que no vem comigo? H suficiente para dois.
Ela travou uma breve batalha com sua conscincia e perdeu. O aroma da carne parecia cham-la insistentemente. Seguiu-o, portanto, e se armou durante o trajeto para combater qualquer insinuao que Penn pudesse fazer.
Mas ele se limitou a sorrir, a lhe dar um prato e a indicar o enorme pedao de lombo.
	Pensei que estivesse com visitas.
Ele negou com um movimento de cabea.
	Sempre prepara suas refeies nessa quantidade?
	No vale a pena grelhar um nico bife, quando a quantidade de carvo  a mesma para se acender o fogo. Por isso preparei um bom churrasco. O que sobrar, esquentarei no microondas, amanh. Toma uma cerveja? Um refrigerante? Agua do lago?
Ela escolheu a cerveja.
	Pensei que tivesse um casamento para administrar esta tarde.
	No me lembre. Voc  um desmancha-prazeres, Penn.
	Espere um minuto  ele protestou.  Eu a salvei de...
	Sim, e depois me avisou para que me proteja contra tornados e outros atos de Deus.
Penn olhou para o firmamento sem nuvens. A estrela da noite havia surgido e brilhava sobre os pinheiros.
	Seu casamento foi atingido por um tornado?
	Um tipo diferente de catstrofe, mas igualmente destrutiva.
Penn levou um pedao de carne a Teddy, que havia ficado amarrado a uma viga do terrao.
	Estou com pena do coitado. Nunca o vi preso antes  Penn comentou.
	S at ele se ambientar no local e aprender a respeitar seus limites. No anda enxergando muito bem e tenho medo que possa cair no lago. Alm disso, se tirasse a coleira neste momento, ele acreditaria que esta  sua nova casa. Por falar nisso, tem certeza de que no quer um cachorro? Ficar alguns meses em Springhill at construir sua casa...
	Eu sabia que deveria ficar de boca fechada at concluir a transao  Penn resmungou.
A respirao suspensa, Kaitlyn quase engasgou. Se Penn no comprasse a propriedade Delaney no ficaria muito tempo na cidade. Era alvio o que estava sentindo?
	Quer dizer que o negcio no est firme?  ela indagou, aps um instante.  Do jeito que me falou, o outro dia, pensei que j tivesse assinado a escritura.
	Problemas de ltima hora. Ele deu de ombros. Obviamente no queria falar sobre o assunto.  O que aconteceu com seu casamento, afinal?
	Problemas de ltima hora  Kaitlyn repetiu, contando-lhe, em seguida, sobre a despedida de solteiro e irritando-se quando ele riu.  Pode me chamar de puritana, se quiser, mas eu acho que Laura teve razo em romper. Detesto esse costume dos homens de quererem agarrar qualquer oportunidade, que lhes surge, para ser infiel.
	Ei, eu no disse isso. Voc est errada em incluir todos os omens nessa categoria. Com o Marcus, por exemplo, voc no tem com o que se preocupar.
Kaitlyn sentiu mpetos de atirar o churrasco em Penn. Qual era a dele para insinuar que havia algo de errado com Marcus?
	Acha realmente que Laura deveria ter engolido esse tipo de comportamento de seu noivo?
	Oh, no. Se Jack ainda sente uma fascinao juvenil por danarinas exticas, ela foi esperta em se livrar dele. Mas, se tivesse me consultado, eu sugeriria que esperasse at hoje. Poderia simplesmente ter explicado aos convidados, no altar, a razo por no estar mais interessada em prosseguir com a cerimnia. Pense nisso. Alm de mais divertido, ela no teria desperdiado tanto dinheiro. Desfrutaria de sua festa e comemoraria a recuperao
de sua sanidade.
Kaitlyn recolheu o prato e o copo e se dirigiu  cozinha, deixando a porta de tela bater s suas costas.
	Voc no sente pena de ningum?  indagou ao ouvi-lo entrar.
	Claro que sinto. S no vejo a razo de estragar minha noite porque Laura est infeliz.
A resposta de Penn fazia algum sentido, mas o episdio ainda a deprimia.
Ele tem razo, Kaitlyn pensou enquanto lavava a loua. O problema no era dela nem dele.
Penn colocou gua para ferver para um caf e enxugou a loua. Quando a cozinha ficou limpa, ela se serviu de uma xcara e saiu para tom-la no terrao. A mesa estava repleta de desenhos e ela, sem refletir, se inclinou para examinar um deles.
Quando percebeu Penn estava a seu lado, as mos nos quadris, olhando-a fixamente.
	Desculpe.  Ela devolveu o desenho para a pilha de papis, mas no pde evitar a curiosidade.  No se trata da casa que voc estava planejando construir nas terras Delaney, no ?
	Quem falou alguma coisa sobre essa propriedade?  Ele lhe endereou um olhar desconfiado.
	No  segredo que a propriedade s pode ser a Delaney.
Como voc disse, essa cidade no precisa de um jornal. E o desenho que vi  de uma casa bonita demais para aquele lugar.
	O lugar pode no ser muito bom no momento. Mais tarde, porm, tudo pode mudar.
	No acredito.
 Talvez esteja certa.
Mas Penn no parecia verdadeiramente interessado no fato de ela estar ou no certa. Kaitlyn se calou. No era da sua conta, afinal, o que Penn quisesse construir e onde.
A lua cheia brilhava no horizonte e no lago. Era como se a gua fosse a superfcie de ura espelho antigo, que refletia as sombras da praia, dos caminhos e das cabanas.
A paisagem da lua sobre o lago sempre tivera o poder de emocionar Kaitlyn, quer ela estivesse em uma canoa, sobre uma esteira na praia, ou no terrao do chal de Penn, com o brao dele ao redor de seus ombros.
Ela virou a cabea e sua respirao acelerou. No, no fora sua imaginao. Ele se aproximara com tanta delicadeza que ela nem percebera. Naquele momento, se quisesse que Penn a beijasse, bastaria erguer o rosto.
No seja tola, ordenou-se. Mas uma questo se insinuou no fundo de sua mente. Por que no aproveita este momento? A lua, a noite maravilhosa, o lago sereno, um homem e uma mulher: todos os ingredientes. Mesmo que no houvesse mais nada entre eles, nem pudesse haver, que mal existiria em um simples beijo? O lbios de Penn estavam macios, quentes, e gentis sobre os seus. Um beijo doce, sem a fora da paixo ou da submisso. Era como se ele estivesse to certo quanto ela de que haviam feito livremente suas escolhas. Sem medo, sem promessas, sem garantias.
Ela soube, ento, que no fora alvio o que sentira, quando percebera que Penn poderia no permanecer por muito tempo em Springhill. Fora medo. Um medo to profundo que se recusara a reconhec-lo e to forte que estava chegando  beira do pnico. Medo de perder Penn outra vez.
Tentara se enganar durante dez anos que o havia esquecido. Chegara, inclusive, a acreditar nisso. Reconstrura sua vida e procurara outra pessoa para amar. Engano o seu. A hesitao, que a dominara na noite em que Marcus a pedira em casamento, era uma prova. No havia mais como negar. Ainda amava Penn. Afastou-se dele com um estremecimento.  Assustada?  ele murmurou.
A voz de Penn lhe pareceu trmula, tambm, como se a realidade houvesse ultrapassado suas intenes. E essa foi a segunda verdade que Kaitlyn teve de encarar. A de que ela no era mais importante para Penn agora, do que fora no passado.
Se ele a amasse teria ficado desesperado ao saber que ela se casaria com Marcus. Jamais teria pensado em termos de presentes, ou de perturb-la a respeito de sua lua de mel, ou ainda de se oferecer para supervisionar a recepo.
O que ele pensaria quando soubesse que o casamento no mais aconteceria?
Nada. Simplesmente daria de ombros e faria uma piada. Coisas que ela no suportaria.
Kaitlyn escapou do constrangimento com a desculpa de estar cansada. Recusou o oferecimento de Penn para acompanh-la, alegando que tinha Teddy para proteg-la e que a distncia era pouca.
Seus passos trouxeram de volta, com uma terrvel clareza, as lembranas de uma outra noite de luar, quando deixara a cabana de Penn, tambm sozinha. S que ela correra, naquela noite, perseguida pelos demnios que povoavam sua mente...
Acendeu a luz assim que chegou e tentou calcular por quanto tempo deveria mant-la acesa, para que Penn pensasse que fora dormir. A ltima coisa que queria era que ele descobrisse que ela estava agitada demais para conciliar no sono.
Furiosa, apagou a luz no mesmo instante. Penn no perderia seu tempo obsefvando-a. Se ela realmente acreditava que ele ficaria espreitando seus movimentos estava doente da cabea.
Deitou-se no sof diante da lareira, dobrou as pernas e estendeu a mo, inconscientemente, para acariciar Teddy. Seus pensamentos divagaram.
Havia se passado um ms, aps o acidente, at a tosse de Penn finalmente desaparecer. Ao ser atirado para fora do barco, ele engolira muita gua misturada a uma certa quantidade de combustvel. Nessa poca, os ferimentos mais visveis j estavam cicatrizados e os amigos estavam procurando agir da forma mais natural possvel. A primeira vez que Kaitlyn ouviu algum repetir
as velhas brincadeiras ficou chocada e assustada ao mesmo tempo. Mas foi nessa ocasio que ele voltou a rir. As risadas lhe pareceram foradas, mas ao menos indicavam que, um dia, ele ficaria totalmente bom.
Passava o mximo de tempo possvel com ele. Embora estivessem preocupados com sua intensa dedicao, seus pais no interferiram. Quando Penn decidira que no poderia continuar vivendo na casa da cidade e se mudara para o chal, Audrey Ross alugara outro, na vizinhana. Audrey cuidara de Penn como uma segunda me. Nunca soubera, porm, que a filha escapava durante as noites pela janela do quarto para se encontrar com Penn sob a velha amoreira.
Mesmo que descobrisse, Kaitlyn sorriu consigo mesma, no teria motivos para preocupao. Os passeios noturnos sempre haviam sido inocentes. Limitavam-se a caminhar ao longo da praia at Penn se cansar o suficiente para conseguir dormir. Ou a se sentarem e conversarem. Ou ainda a se sentarem em silncio.
Jamais falaram sobre o acidente. A cada vez que o tema era sugerido, Penn se esquivava e ela decidira que de nada adiantaria pression-lo. O melhor era deix-lo esquecer. Algo que aconteceria com o tempo. Ao menos fora disso que sua inexperincia e o otimsmo da juventude tentara convenc-la.
Sentira-se aterrorizada na noite em que no o encontrara sob a amoreira, como de costume. Correra para a cabana. Penn estava sentado no cho, junto  lareira, imvel como uma pedra. No colo, segurava uma caixa com a coleo de pedras que pertencera  sua me. Em sua angstia, nem sequer ouvira Kaitlyn se aproximar.
Ela se ajoelhou e abraou-o. No teve dvidas quando percebeu que ele queria possui-la. Amava-o e sabia que se casariam em breve. Que mal haveria em confort-lo com seu prprio corpo, em provar-lhe o quanto era amado? Como poderia se recusar no momento em que Penn mais a necessitava?
A experincia no foi exatamente a realizao de seus sonhos  esperanas.
 No! - Penn a empurrou assim que terminaram, e ela declarou o seu amor.  Eu perdi a cabea.
As palavras ficaram gravadas em sua mente, assim como o modo com que ele a fitou, como se nunca a tivesse visto antes.
Tentara abra-lo e confort-lo, mas ele reagira como se seu toque o enojasse. Dissera que aquilo no deveria ter acontecido; que fora um terrvel erro.
Kaitlyn se lembrava de ter sentido um conforto momentneo ao descobrir que ele no tentara tirar vantagem da situao, que a escolha fora dela.
Penn havia ficado preocupado com a possibilidade de ela engravidar. Em seguida a acusara de ter premeditado o que acontecera. Sem entender muito bem ao que Penn se referia, Kaitlyn respondera que no importava, j que em breve eles se casariam...
Aquelas palavras haviam sido o estopim da dinamite. Penn, o homem a quem amava, tornou-se irreconhecvel. Alegara que somente um terrvel lapso poderia t-lo induzido a permitir que ela o manipulasse. E que somente uma gravidez poderia for-lo a um casamento indesejvel.
Manipulao, gravidez e casamento indesejvel, palavras que se cravaram em seu corao como um punhal, dilacerando seu amor e sua auto-estima em pequenos fragmentos.
Kaitlyn fugira de sua presena, correndo como louca, como se estivesse sendo perseguida por demnios.
O acidente que dizimara a famlia de Penn no havia destrudo as iluses juvenis de Kaitlyn, a sensao de que o mundo era justo e que o bem sempre prevalecia. Aquela noite, porm, expulsara a inocncia de dentro dela, e a ensinara a ser cnica.
Voltara para seu quarto e permanecera acordada at o amanhecer. Nos dias que se seguiram, recusou-se a olhar, a falar e a escutar Penn. No que ele tivesse' se esforado muito para lhe falar. No se desculpou. A nica expresso que lhe dirigiu foi a de alvio, quando soube que ela no engravidara. Kaitlyn quase o odiara naquela ocasio.
Disse a seus pais que o acidente havia transformado Penn em uma pessoa diferente, que ela no mais conhecia.
Era tarde demais, no entanto, para mudar os planos de frequentar a mesma universidade que ele. A nica sada seria evitar encontr-lo.
Essa preocupao se provou desnecessria pois Penn no voltou para a escola. Poucas semanas antes do incio das aulas, ele instruiu o advogado de seus pais a manter a casa do lago e vender todos os demais bens. Em seguida deixou Springhill.
A cidade inteira comentara,  claro, sobre o abalo psquico, sobre a irresponsabilidade e sobre as reaes dos jovens, at surgir uma outra novidade.
Penn Caldwell fora esquecido com o passar do tempo. Exceto por ocasionais cartes postais. Exceto por Kaitlyn, que nunca poderia esquecer a decepo daquela noite em que Penn demonstrara nunca t-la amado. Em que demonstrara que a considerava apenas uma caadora que seria capaz de usar seu filho como se fosse uma arma...
Ela enterrou a cabea em uma almofada e chorou por todos os anos de amargura e ressentimento.
Penn acertara, aquela tarde na sorveteria, quando dissera que ela continuava zangada por ele ter se recusado a se casar.
O sol j estava se infiltrando pela janela, formando pequenos quadrados no cho de madeira, quando as lgrimas cessaram. Suas pernas estavam rgidas devido ao tempo em que as conservara em uma nica posio; seu corpo doa de tenso.
Mas o corao estava aliviado. Finalmente permitira se lembrar do passado e exorciz-lo. Agora, com a sabedoria inevitavelmente adquirida com o decorrer dos anos, ela podia enxergar as coisas sob outro prisma. Podia at perdoar Penn pelo que acontecera. Podia compreender que sob o estresse que ele estava vivendo, no fora responsvel pelo que fizera aquela noite. Ambos haviam cado em uma armadilha, em meio a foras que no sabiam dominar.
Embora ele houvesse sido sincero em cada palavra, ela sabia que no fora o verdadeiro Penn quem a ferira, mas aquele que nascera no momento da exploso. Aquele que, apesar de tudo, ela continuava a amar.

CAPITULO IX

Kaitlyn levou a maior parte da noite para voltar  razo e se convencer de que o fato de amar Penn no mudava nada. De que o fato de ter aceito e compreendido o que lhe acontecera no mudava a terrvel verdade.
A dolorosa admisso de seu amor, portanto, no deveria transtornar sua vida. O melhor a fazer seria expulsar o pensamento de sua mente e continuar se dedicando de corpo e alma ao seu trabalho.
Foi o que decidiu enquanto escovava os dentes. Foi o que repetiu quando tomou seu desjejum de cereais com leite frio. Foi o que tornou a repetir enquanto desencaixotava a mudana.
No momento em que foi at o carro para apanhar as roupas, soube que a deciso havia sido intil. Penn estava pescando, a poucos metros. Por mais que tentasse no conseguiria esquec-lo. Amava-o demais, apesar de tudo o que acontecera.
Ele deveria t-la ouvido, pois se virou e acenou, para em seguida voltar a pescar. Foram alguns segundos de ateno apenas, mas o suficiente para que seu corao pulsasse mais depressa.
Voc est sendo uma tola, falou consigo mesma. No  mais uma garota. Voc e ele se tornaram pessoas diferentes.
E aquela era a parte principal do problema, pois havia algo nesse novo Penn, que a tocava profundamente. Uma reserva, um mistrio silencioso, que a atraa e ameaava sua paz de esprito.
Ela o amara antes, mas o amava ainda mais agora.
Quando foi novamente at o carro, ele no estava mais junto ao lago, nem em parte alguma. A mensagem era bvia. Ele poderia ter subido at seu chal para cumpriment-la ou para verificar se precisava de ajuda. Mas no o fizera. Queria que o encarasse simplesmente como o que era: um vizinho.
E era isso o que ela tambm queria. Um bom vizinho. Algum com quem pudesse contar em uma emergncia, como a da falta de luz. Apenas isso. Sabia que no havia possibilidade de am futuro entre eles.
Mas essa descoberta e a disposio de se proteger contra um sofrimento intil no a fez se sentir melhor.
Na tarde da segunda-feira passou pelo escritrio de Stephanie para apanhar a documentao da venda da casa. Sua me havia viajado para junto da irm assim que a mudana terminara, e Kaitlyn prometera cuidar dos papis e depositar o cheque em sua conta.
Como Stephanie no demoraria a chegar de um compromisso, a secretria pediu que esperasse e a conduziu  sala da chefe.
Kaitlyn no se sentou. Sempre que visitava o escritrio da imobiliria, gostava de olhar para os enfeites que o adornavam. O vaso de cristal, por exemplo, exibia rosas vermelhas naquele dia. E Stephanie colocara novas fotografias de seu marido e filhos nos porta-retratos. Alm disso, havia uma nova aquarela de uma casa.
Ela estava examinando-a atentamente quando Stephanie chegou e desabou sobre uma cadeira.	
	Linda, no?
	Eu no a conheo. A casa, quero dizer. Ningum nesta cidade possui uma casal igual a esta.
	Ainda no  Stephanie concordou, estendendo o cheque para Kaitlyn.  Mas logo haver uma igual, isto , caso eu consiga fechar o negcio Delaney.
Kaitlyn segurou o cheque distraidamente. Sua ateno continuava focalizada no quadro.
	Quer dizer que este  o tipo de casa que Penn pretende construir?
	Oh, no. Esta foi onstruda na Georgia. Trata-se apenas de uma amostra de seu trabalho. Mas a maioria de seus projetos seguem o mesmo padro, como se as casas precisassem de ncoras para no sarem flutuando.
	Quer dizer que os projetos tambm so de Penn?
Stephanie a fitou com estranheza, como se estivesse diante de uma criana.
	 esse o trabalho dos arquitetos, Kaitlyn. Penn voltou a estudar e se formou.
Kaitlyn sentiu que empalidecia.
	No espera que eu acredite que voc no sabia.
	Eu no sabia. Ningum me contou  Kaitlyn respondeu.
	Ningum lhe contou ou voc no quis escutar pois a realidade no combinava com o que voc preferia pensar a respeito de Penn?
	Mas se ele  capaz de obras como esta  Kaitlyn tocou a aquarela , por que se dedica a trabalhos pesados?
	Por que no pergunta a ele?  Stephanie sugeriu, imperturbvel.  E quanto aos apartamentos? Quando deseja v-los?
Podemos combinar para este final de semana?
Kaitlyn cobriu o trajeto at o lago com a mente voltada unicamente para Penn. Jamais havia lhe ocorrido que ele era capaz de desenhar e pintar com tanta perfeio. O que mais saberia fazer?
"Por que no pergunta a ele?", sugerira Stephanie. Como se fosse fcil!
Mas ela tinha razo.
Queria se omitir por medo, porque sempre esperava o pior, porque no queria castigar ainda mais o seu orgulho ferido.
Seria tarde demais para mudar as coisas? E ela queria mud-las?
Penn estava novamente pescando no lago quando ela retornou. Usava apenas uma cala jeans cortada na altura dos joelhos. Mesmo  distncia ela podia ver o movimento dos msculos de seus ombros, conforme ele atirava o anzol.
Entrou na casa o mais rpido que pde. Tentou se concentrar no endereamento dos convites para o casamento de Kathy War-ren, mas desistiu aps arruinar o segundo envelope.
Normalmente no era o tipo de pessoa que guardava rancores, ou que distribua acusaes quando os outros cometiam erros.
Aquela tarde, na sorveteria, deveria estar em seu limite para perder o controle e acusar Penn. O mnimo que deveria fazer, portanto, era se desculpar.
Preparou dois copos de ch gelado e levou-os at a praia.
	Como est a pescaria?
	Boa.  Ele tomou a bebida quase de um s gole.  Pena que eu no tenha trazido meu arpo.
	Arpo? Desses que se usa em pescas submarinas?
	E necessria uma certa percia, mas assim que se aprende a manej-lo, pesca-se com mais facilidade do que com uma vara.
Alm disso, os peixes deste lago seriam pegos de surpresa.
	Mas a pesca com arpes no  ilegal?  Kaitlyn estranhou.
	 por isso que disse que os peixes seriam pegos de surpresa.
Kaitlyn tomou o ch em silncio. Quando tomou a falar, sua voz soou cautelosa.
	Por que permitiu que eu pensasse que no havia voltado a estudar?
O reflexo do sol sobre a gua pareceu incomod-lo repentinamente, pois Penn estreitou os olhos e franziu a testa. Ela sabia que ele a escutara, mas por um longo momento Penn preferiu se fingir de surdo.
Ela no desistiu. Esperaria a resposta o tempo que fosse preciso.
	Porque no era importante.
Kaitlyn engoliu o cubo de gelo. A dor que sentiu na garganta, porm, era pequena em comparao com a dor causada pelo comentrio.
Era o mesmo que Penn tivesse dito.
"Eu no disse nada porque voc no significa nada para mim".
Definitivamente era uma tola. O que ele dissera no fora nenhuma novidade. Deveria ter esperado uma resposta como aquela.
	Qual a razo da pergunta, Kaitlyn?  ele quis saber.  Um ttulo significa tanto assim para voc?
	No. Apenas gostaria de ter sido informada por voc, e no por outra pessoa.
Ele a fitou por um instante e voltou a se dedicar  pesca. Talvez ela devesse lhe dar as costas e se afastar, mas no pde. Por mais doloroso que fosse, teria de falar.
	Por que no me corrigiu quando eu disse que voc no tinha nenhuma ambio, que no passava de um vagabundo sem emprego fixo?  A voz morreu em sua garganta quando a exploso chegou ao fim.  No responda. Eu sei que isso no lhe importa.
	Voc no demonstrou qualquer interesse pela vida que eu poderia estar levando. J havia decidido sobre o tipo de pessoa que eu me tornara e no queria ser obrigada a ter de mudar de opinio.
Ela mordeu o lbio. Merecera o comentrio. Mas naquele dia. Agora sabia a verdade. Haveria alguma forma de convenc-lo de que mudara?
	Sinto muito por aquele dia, Penn.  claro que me interesso por voc.  Com medo de que ele pudesse adivinhar o que realmente havia por trs daquelas palavras, Kaitlyn se apressou
a acrescentar  Por que escolheu a arquitetura? Antigamente queria ser engenheiro mecnico.
Penn tornou a atirar a linha. Em seguida deu de ombros.
	A arquitetura  a melhor parte da engenharia.  mais prtica.
Detesto lidar com abstraes.
Ela soltou lentamente o ar que havia prendido, sem perceber.
	 por isso que gosta de participar da construo de suas casas?
	Quer realmente saber?
Kaitlyn respondeu que sim com um gesto de cabea.
	Gosto de apontar para minhas casas e dizer que eu prprio as construi. Que no sou apenas uma pea dentro de uma mquina.
Naquele momento, Penn retirou do lago um imenso bagre.
	Que acha de comer peixe no jantar?
Talvez fosse melhor dizer no ao convite. Tinha trabalho a fazer, e agora que estava mais calma, no teria dificuldade em se concentrar.
	Eu adoraria. Levarei uma salada de batatas.
Continuou repetindo a si mesma que nada havia mudado entre ela e Penn, durante trs dias. A cada vez que o via, sentia-se como se estivesse caminhando sobre uma corda bamba. Um movimento em falso e cairia. E quanto mais o tempo passava, mais difcil era manter o equilbrio, mesmo ciente de que no havia esperanas para o seu amor.
Penn andava aborrecido e ansioso por causa do fechamento do negcio. Precisava se distrair de alguma forma e Kaitlyn era  quem estava  mo. Convidava-a para nadar, para caminhar e para jantarem juntos.
Deixava claro, porm, que ela no passava de uma companhia. Que gostava de t-la a seu lado, mas que ela no era necessria, ou no iria embora assobiando, despreocupado, quando ela recusava seus convites.
Ela se sentava, ento, diante de uma pilha de envelopes e repetia que no havia futuro para aquele relacionamento, que faria melhor em cortar o mal pela raiz.
Seu corao, todavia, recusava-se a deixar a esperana morrer. Mesmo que no pudesse ter o que queria, o que ele lhe dava era melhor do que nada. O que era o futuro, afinal, seno uma esperana, um ideal efmero, um amanh que poderia no chegar? Por que no desfrutar daquilo que era possvel hoje? Qual seria a alternativa?
A nica que enxergava era o desperdcio do dia de hoje, assim como haviam sido desperdiados os ltimos dez anos.
No era mais uma garota. Era uma mulher que aprendera a duras penas a diferena entre os sonhos e a realidade. No se deixaria levar pelos preconceitos outra vez.
Quando Penn bateu  sua porta, portanto, com uma cesta, e lhe perguntou se queria ir com ele at o outro lado do lago para colher framboesas, ela no hesitou.
O dia estava muito quente e a brisa que soprou em seu rosto, com o movimento do barco, no poderia ter sido mais agradvel.
As framboesas no cresciam prximas s margens, mas sim nas encostas das colinas, e estavam to doces e perfeitas que eles comeram mais do que guardaram nas cestas.
Quando se sentaram  sombra de uma rvore, Kaitlyn percebeu que no se sentia to relaxada havia tempos.
 Voc est com o queixo sujo  ela estendeu um dedo para tentar retirar a mancha.
	No conseguir retir-la dessa maneira.
	E quem disse que eu quero retir-la? Queria era espalh-la por todo o seu rosto.
Penn segurou suas mos. Em vez de atrai-la, porm, empurrou-a. Perdendo o equilbrio, Kaitlyn caiu de costas sobre a relva. Um segundo depois, Penn estava sobre ela.
	Que tal brincarmos juntos, ento?  Ele comeou a esfregar o queixo em seu rosto e em seu pescoo.
	Pare!  ela gritou, rindo.
	Como voc  educada quando pede alguma coisa!
	Por favor, Penn...
Ele se afastou e seus olhares se cruzaram. O riso morreu e ele tornou a se curvar sobre ela. No havia fora em seu toque, mas algo ainda mais assustador do que o uso da violncia, e ainda mais irresistvel.
No havia mais brincadeira no gesto. Apenas um desejo intenso que parecia inundar seu corao e seu corpo. Gemeu aps o beijo.
E ele se afastou.
Por qu?, ela quis gritar. Por qu?
	Droga!  Penn praguejou, baixinho.  De onde veio essa rajada de vento?
Assim dizendo, Penn se levantou e olhou para o cu. Kaitlyn o imitou, sem entender o que estava acontecendo. No mesmo instante, dois pingos de chuva atingiram seu rosto como se fossem lminas penetrando em sua pele quente. Levantou-se de imediato. O sol havia desaparecido e pesadas nuvens cinzentas pareciam se espalhar por todas as direes.
	Precisamos correr.  Ele pegou-a pela mo.
	Mas o boletim meteorolgico no previa chuvas...
	Ligue para eles, quando puder, e registre uma queixa. Enquanto isso, temos de tentar chegar ao barco antes que a tempestade desabe.
Os pingos de chuva haviam sido apenas o primeiro aviso da Me Natureza. O vento comeou fustigar o lago, encrespando suas guas. Kaitlyn pensou que no fossem conseguir atravess-lo. Apesar de Penn ter acionado o motor em velocidade mxima, o
barco parecia estar encontrando srias dificuldades em desafiar a tempestade.
Tentou ajudar Penn ao chegarem  doca, mas ele fez um sinal de que no seria preciso. Kaitlyn, ento, correu em direo ao chal.
Esfregou-se vigorosamente com uma toalha, mas no conseguia parar de tremer. Ajoelhou-se, ento, diante da lareira e riscou um fsforo sob a pilha de gravetos e pedaos de madeira. S comeou a se sentir melhor, quando o calor se espalhou pela sala.
Se aquilo era uma amostra do que seria um inverno no lago, ela no gostaria de estar ali para comprovar. Seria possvel que Penn estivesse realmente disposto a enfrent-lo apesar do isolamento, da dificuldade de se conseguir provises, da solido?
Talvez a ideia fosse essa. Ficar completamente s...
Teddy se ps a rosnar naquele momento. Em seguida, algum bateu  porta. No podia ser Penn. Ele no teria batido. Ela correu a atender.
	Marcus? O que est fazendo aqui?
Ele deu um passo em sua direo.
	Preciso falar com voc.

	Entre. No fique a parado nessa chuva. Venha se aquecer junto ao fogo. Era o que eu estava fazendo.
	Obrigado. Eu estava jogando golfe esta tarde, quando foi abordado um certo assunto.
Marcos tirou a capa e fechou o guarda-chuva. Incrvel. Estivera jogando golfe e, mesmo assim, viera preparado para enfrentar uma tempestade!
	Achei que deveria saber  ele concluiu.
	Saber o qu?
	Estavam falando sobre voc, Kaitlyn, e sobre Caldwell. A cidade inteira acredita que voc veio para c para ficar com ele.
O comentrio no deveria t-la surpreendido. O grande equvoco fora ela no ter previsto que haveria fofocas, por si mesma.
	Agradeo pela informao.
	Por que no me disse que vocs estiveram comprometidos  vez?  Marcus indagou, srio.
	Porque no estivemos, assim como tambm no estamos agora. Somos apenas vizinhos. Por que est preocupado?
	Ainda gosto de voc, Kaitlyn. No gosto de v-la envolvida em um escndalo como esse.
A porta foi aberta de repente.
	No estou dizendo que a tempestade est violenta, mas acabo de ver um pato com colete salva-vidas  Penn anunciou.
 D para me arrumar uma toalha, Kitten?  Ele enxugou os cabelos e s cumprimentou Marcus quando se aproximou da lareira.  Como vai, Wainwright?
Ele estendeu a mo molhada, que Marcus examinou longamente antes de apertar.
Em seguida, Penn se inclinou sobre Kaitlyn. No houve tempo para ela desviar o rosto. Ele segurou-lhe o queixo e beijou-a nos lbios.
	Deixei as framboesas no terrao.
Marcus se levantou bruscamente.
	Vejo que perdi meu tempo.
	Oh, no se v ainda  Penn caoou.  Est com pressa?
Nesse caso, deixe-me acompanh-lo. Afinal no posso ficar mais molhado do que j estou. - Ele passou um brao pelos ombros do outro.  Quero cumpriment-lo por ter escapado de um destino pior do que a morte.
A raiva que Kaitlyn sentiu foi to grande, que chutou a pedra da lareira. A dor a fez encolher o p e apert-lo com as duas mos, tentando no chorar.
Se Penn a surpreendesse chorando, a situao ficaria ainda pior, pois no era a dor que fazia as lgrimas deslizarem por seu rosto, nem o conhecimento de que estava sendo alvo, novamente, dos comentrios de Springhill.
"Um destino pior do que a morte". Palavras que confirmavam que nada iria mudar. Se no soubesse sobre seu rompimento com Marcus, Penn nada teria dito. E se soubesse, e tivesse intenes de se casar com ela, j teria abordado o assunto.
Deveria ter chutado Penn em vez da parede. Ou talvez a si mesma.
	O fogo foi uma tima ideia, Kitten  Penn falou entusiasticamente.
Kaitlyn se voltou, furiosa.
	Precisava ter feito isso?
	Por qu? Voc queria que ele tivesse ficado para jantar?
	Poderia querer!
Penn atravessou calmamente a sala.
	Jamais teria pensado que uma mulher, que larga seu anel de noivado dentro de um cinzeiro de restaurante, quisesse tornar a ver o homem em questo.
Ela cerrou os punhos. Penn no apenas estava ciente do rompimento do noivado, mas tambm de seus detalhes.
	A deciso de mand-lo ou no embora deveria ter sido minha, de qualquer forma, e no sua! Voc no tem qualquer direito sobre mim! No me quis h dez anos, e no me quer agora! Quer apenas causar problemas!
	Eu disse que no a queria? Como pode duvidar do que sinto por voc depois do que houve esta tarde? Preciso lembr-la?
	No preciso de nada de voc  Kaitlyn respondeu em voz baixa e rouca.  Saia daqui, Penn. No me procure mais.
Ele estava tentando se aproximar. De repente parou. Ela se virou de costas e cruzou os braos com fora na tentativa de estancar os tremores que a sacudiam.
L fora, o mundo estava desabando. No interior da cabana s se ouvia o crepitar do fogo.
	Falarei com Marcus amanh  Penn avisou e se foi.
Segundos depois, uma luminosidade intensa clareou o chal.
Um forte estrondo se seguiu. Kaitlyn se dirigiu para a janela. Outro raio riscou o cu. Sua claridade era tanta que ela pde ver a praia, as ondas turbulentas quebrando sobre a areia, e a velha amoreira, ao lado da cabana de Penn, que havia se partido e estava comeando a tombar.
A ltima imagem que viu, conforme a luz se apagava, foi a figura de um homem, muito pequeno, e diretamente em sua tra-jetria.
CAPITULO X
Kaitlyn estava fora antes de ter conscincia de ujue havia se movido. Corria sob a chuva e o vento sem sentir os golpes frios em seu rosto, nem a aspereza do solo contra os ps descalos.
Gritava e corria. No gritava o nome de Penn, no gritava palavras. Eram sons instintivos e desesperados, pois em sua mente ela j via Penn esmagado sob o peso da imensa rvore. Ferido. Morto...
A terra tremeu com o impacto e o ar se impregnou do cheiro enjoativo do oznio. O som da queda ecoou atravs do vale. Ou seria o som de outro trovo?
O brilho irregular de um novo raio mostrou-lhe o estrago em fragmentos surrealistas, como se estivesse vendo um filme.
A rvore havia se dividido ao meio e metade dela jazia contra uma parte da cabana de Penn. Uma parede do terrao havia desabado e abalado uma boa parte do piso. A outra metade havia cado em direo oposta, sobre a rua e sobre o caminho de entrada da casa. Um galho havia cado sobre a cabine do velho caminho.
Ela fechou os olhos. No queria ver mais nada.
Mas se Penn ainda estivesse vivo, o socorro s dependeria dela. Engoliu em seco e forou-se a abrir os olhos. Na escurido, tropeou sobre a raiz e caiu. S quando se viu inteiramente coberta de lama, percebeu que ainda no parara de gritar. Tentou se controlar.
No sbito silncio, ouviu Penn chamar seu nome. A voz parecia fraca e distante, ou seria o efeito da tempestade? Ergueu a cabea
e estava tentando responder, quando algo a puxou da lama, como se fosse uma pena, e a colocou de p. Lutou para se desvencilhar. Precisava encontrar Penn.
	Kaitlyn, pare, pelo amor de Deus!
Ela agarrou-o pela camisa.
	Eu vi voc. Pensei que a rvore tivesse cado...
	E veio at aqui para ter certeza?
	Como pode dizer uma coisa dessa?  ela tornou a gritar, entre os soluos. S ento percebeu que ele estava de p e, alm de tudo, amparando-a. Nada mais tinha importncia. Ele estava bem.
Suas energias comearam a voltar e ela o abraou com fora.
	Detesto ter de interromper a comemorao  Penn murmurou, sem flego , mas  mentira o que dizem sobre um raio no cair duas vezes no mesmo lugar. Precisamos sair daqui.
Mas Kaitlyn no podia solt-lo. Conforme caminhavam de volta para o chal de Jill, conservou seu brao ao redor da cintura dele.
Chegaram finalmente e foram recepcionados por Teddy, que latia e pulava de alegria ao v-los de volta, e tambm de medo dos troves.
Penn ajoelhou-se diante da lareira e avivou o fogo. Kaitlyn sentou-se no cho, sem notar o estado deplorvel em que se encontravam seus cabelos e suas roupas.
Havia um filete de sangue na testa de Penn, e outro no brao.
	Voc se feriu.
	Nada de srio. Alguns gravetos riscaram minha pele no momento em que a rvore desabou.
	A rvore no o mata por um milagre e voc diz que no foi nada?
	Nunca ouviu falar sobre os anjos da guarda? O meu j passou por coisas piores.
	Eu gostaria que voc no fizesse piadas sobre algo to srio  ela pediu, trmula.
Penn acrescentou mais um pedao de madeira ao fogo e a fitou, pensativo.
	Desculpe, Kitten. Isso realmente importa?
Claro que no  ela esbravejou.  Eu teria tentado ajudar qualquer um que estivesse l fora. Um esquilo, um rato, ou...
Ela tremia tanto que Penn se aproximou e abraou-a.
Kaitlyn tentou empurr-lo, histrica. Lutava contra ele e contra si mesma. De repente ficou inerte, sentindo apenas o calor que emanava daquele corpo forte.
	Est se sentindo melhor?
Desejaria negar e ao mesmo tempo permanecer entre o crculo daqueles braos para sempre.
	Ento v imediatamente para o chuveiro. Estamos ensopados. Se no nos aquecermos logo, acabaremos pegando uma pneumonia. No seu caso, inclusive, uma limpeza enrgica no faria mal.
O bom humor de Penn s serviu para faz-la chorar. Balanou a cabea para tentar afugentar as lgrimas, mas o movimento apenas as libertou.
Penn segurou-lhe o queixo e ergueu seu rosto. Enxugou cada lgrima com um beijo. O gesto provocou uma onda de calor em seu corpo, e seus joelhos fraquejaram.
Ele murmurou algo que ela no entendeu. Em seguida atraiu-a com fora e seus lbios se colaram aos dela com paixo. Era justo, Kaitlyn pensou, que Penn tambm perdesse o controle e a razo, assim como vinha acontecendo com ela.
Mas o demnio da lembrana a assaltou. Penn a acusara, uma vez, de manipul-lo para que fizessem amor, na esperana de prend-lo para sempre. Deveria se repetir a mesma cena do passado?
Tentou afugentar o pensamento, mas seus dedos deslizaram pelo rosto dele e se umedeceram de sangue. Foi o que a trouxe de volta  realidade. Suas mos desceram at a altura do peito e ela o empurrou imperceptivelmente.
	Precisamos desinfetar os ferimentos.
	Eu tomarei um banho assim que voc terminar o seu. Os curativos podem ficar para depois.
Sem discutir, ela subiu at o banheiro e ligou o chuveiro no mximo. No estava mais com frio, mas a lama estava comeando a secar, provocando-lhe coceiras. Estava um desastre. No fora  toa que Penn dissera que precisava se limpar.
Quando voltou para a sala, embrulhada em seu roupo atoalhado e ainda esfregando os cabelos com uma toalha, foi presenteada com um delicioso aroma de chocolate quente. Penn lhe entregou uma caneca.
	Eu estava pensando  ela hesitou.  Uma das paredes de sua cabana...
	O que se h de fazer? - Ele ergueu os ombros.
	Os mveis, do lado de dentro, devem ter sido destrudos, tambm.
	Nada que no possa ser consertado e substitudo. O importante  o que p pior j passou. O cu est comeando a clarear.
Kaitlyn olhou para o relgio e ficou surpresa ao constatar que ainda nem chegara a hora do sol se pr. A escurido fazia pensar que passava da meia-noite.
Penn levou a caneca para o banheiro e Kaitlyn voltou para junto do fogo, depois de ir buscar um cobertor em seu quarto. Estendeu-o diante da lareira e se sentou, com os ps prximos ao fogo.
	Que pssima ajuda!  ela se reprovou.  O fato de Penn estar salvo e perambulando pela casa no  mrito seu. Saiu na tempestade para socorr-lo e acabou caindo em uma poa de lama. Em vez de socorrer, foi socorrida.
Aquilo s provara uma coisa: sua falta de controle. Os gritos ainda ecoavam em seus ouvidos, e sua garganta precisaria de alguns dias para se recuperar.
Teddy se enroscou a seu lado, e ela o acariciou, enquanto seu olhar se perdia nas chamas.
Precisava parar de jogar consigo mesma. No podia mais fingir que viveria sem ele sem maiores problemas. No podia mais tentar se enganar que no se importava com o futuro. Amava Penn com todas as foras do seu ser. Restava-lhe apenas uma escolha. Aceitaria aquilo que pudesse ter. Qualquer coisa que ele desejasse compartilhar com ela.
Mas e se ele no quisesse? E se pensasse que ela estava tentando manipul-lo mais uma vez?
Teria de haver um jeito de faz-lo entender que ela aprendera a conhec-lo e que se contentaria com o que ele pudesse lhe dar...
Seria verdade? Poderia prometer isso honestamente?
Mas no havia outra escolha. Ela sofreria muito quando ele se fosse. Sim, porque Penn partiria inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde.
Endireitou os ombros. Sofreria quando chegasse a hora, no antes. Seria doloroso, sem dvida, mas no mais do que aconteceria naquele momento, caso fugisse. Perd-lo seria horrvel. Recusar-se deliberadamente a aceitar o que ele tinha a oferecer significaria a morte. Era melhor ter pouco do que nada.
A luz tremulou duas vezes e se apagou. Sem outra fonte de luminosidade, o fogo brilhou ainda mais vermelho. At Kaitlyn encontrar uma vela e acend-la sobre um pires, Penn j havia terminado o banho.
Ouviu-o tatear o caminho pela escada. No se voltou, com medo de encar-lo. Seus olhares s se encontraram quando ele se sentou a seu lado, sobre o cobertor, tambm embrulhado em um roupo.
	Ainda bem que algum deixou um roupo por aqui  ele brincou e avivou mais uma vez o fogo.
	No foi nenhum convidado meu. Estava pendurado na porta do banheiro desde o dia em que me mudei.
Ela ficou furiosa quando ele riu.
	Eu no estava insinuando nada, Kitten. No seria preciso.
 Penn largou o atiador e rodeou-lhe o corpo com os braos.
Um momento depois estavam deitados.  E ento? Arrepende-se por termos esperado at estarmos limpos?  Os lbios de Penn deslizaram pelo queixo e pelo pescoo de Kaitlyn, at atingirem o lbulo de sua orelha.  No que eu tenha uma obsesso por gua e sabonete,  claro, e no que eu no a tenha achado irresistvel, esta tarde, manchada de suco de framboesa. Mas prefiro uma pele perfumada a uma coberta de lama.
A voz foi diminuindo de intensidade conforme os lbios a procuravam com urgncia. Ondas de prazer a invadiram.
Ele sabia, Kaitlyn pensou. Ele adivinhara o que ela tentara lhe dizer.
Gemendo, procurou atrai-lo para junto do seu corpo. Ele prendeu-a pelas mos e comeou a acarici-la gentilmente com a boca. Mordiscou a pele delicada de seu pescoo, depois afundou a cabea entre os seios trgidos, afastando o roupo.
Naquela noite, h dez anos, quando fizeram amor pela primeira vez, ela era virgem, inexperiente, ansiosa por satisfaz-lo sem pensar em si prpria. Naquele momento, Penn estava provando que ela continuava inexperiente, apesar de ter se tornado mulher. Ensinou-lhe coisas sobre o amor e o prazer que ela nunca sonhara existir. Quando chegaram  concretizao final do ato, a satisfao foi to plena e to grandiosa que ela sentiu vontade de chorar.
Depois ele se sentou e ficou olhando para o fogo, em silncio.
Kaitlyn permaneceu deitada, os olhos semicerrados, observando as sombras que danavam no rosto de Penn. O silncio se prolongou at o insuportvel. Ela pensou em uma dezena de modos de quebr-lo, mas as sentenas se misturavam em sua mente.
Acabou dizendo qualquer coisa, mesmo sob o risco de parecer uma tola.
	Est por demais pensativo.
	Demais.
A voz de Penn soou quase sombria, fazendo-a se arrepender de t-lo chamado.
Agora no, por favor, desejou suplicar. Deixe-me saborear o meu sonho ao menos por algum tempo.
Mas jamais teria coragem para isso. Um pedido como esse fatalmente implicaria em explicaes, discusses, avisos, tudo o que ela desejava evitar.
Por essa razo, sentou-se e colocou o cobertor ao redor dos ombros, dizendo o mais casualmente possvel:
	No sei quanto a voc, mas framboesas no conseguiro matar minha fome.
Ele se voltou para ela com um sorriso, mas seus olhos continuavam srios.
Ele est com medo, Kaitlyn adivinhou. Com medo do que ela fosse querer, ou talvez exigir. Isso a entristeceu. No deveria ter acontecido to rpido. Mas fora inevitvel. Ela sabia que seria impossvel viver perto de Penn, naquele local mgico, onde um toque levava a um pensamento, e onde duas mentes se tornavam uma.
0 jantar foi uma aventura. Aqueceram uma lata de carne, na lareira, sobre uma grelha improvisada, e tostaram o po, espetando-o em garfos compridos. Foi com intenso esforo que ela conseguiu manter a voz calma e conversar trivialmente, quando chorava por dentro.
	Sinto-me como uma pioneira atravessando o oeste em uma carroa. S gostaria de saber se os pioneiros comiam tanto quanto eu comi.
	Quando tinham a sorte de conseguir alimentos.
Kaitlyn abriu um pacote de marshmallows e espetou um no garfo.
	Pena que as barras de chocolate e os biscoitos tenham acabado.
	Uma bela pioneira voc teria dado  Penn zombou. No consegue viver sem se cercar de conforto.
O brilho que ela viu nos olhos dele a fez baixar a cabea, e procurar espetar mais um marshmallow. No sabia se era a persistncia de seu desejo ou a ameaa das lgrimas que a faziam se sentir to mal.
	Voc me mostrar suas casas algum dia?  perguntou de
chofre.
Os olhos de Penn escureceram e ela no entendeu. O que haveria de to horrvel em ele lhe mostrar seus projetos? Foi ento que se lembrou da tempestade.	.
	Sua cabana... os projetos...?
	S saberei amanh, quando voltar para l.
Os doces foram totalmente consumidos. Distrada como estava, Kaitlyn comeu tantos que chegou a lambuzar o rosto. Penn riu ao v-la tentar limp-lo, e acabou limpando-o ele mesmo com a ponta de sua lngua.
No instante em que terminou a operao e a conduziu ao quarto, Kaitlyn j havia se esquecido de que ele no respondera sua pergunta.
A luz do sol a despertou. Estava brilhante e penetrava pela janela do terrao. Kaitlyn se levantou e olhou para o cu. O mundo parecia to limpo, que parecia ter sado de uma lavanderia. Chamou Penn e no o encontrou.
Sua ausncia no a preocupou a princpio; era mais tarde do que imaginara e ele, sem dvida, j estava inspecionando os estragos causados pela queda da rvore.
Desceu para a cozinha e franziu a testa. No havia nenhum sinal de que Penn estivera ali. A energia eltrica havia retornado durante a noite, mas ele deveria ter sado antes, ou no teria deixado a luz acesa. Tambm no preparara o caf. Disse a si mesma que aquilo no significava nada e saiu para se encontrar com ele.
S encontrou os pssaros, a cabana com um buraco enorme na parte lateral, a cabine do caminho amassada, e a rvore cada.
Penn deveria ter chegado  concluso de que no valeria a pena consertar o lugar. Ou a tempestade, o prejuzo e a noite explosiva que passara com ela, o levaram a fugir novamente?
O bom senso lhe respondeu que sua suposio era improvvel. Afinal o carro continuava l, bloqueado pelo tronco. Assim mesmo, persistia o frio em seu estmago. Ele a deixara uma vez e mais cedo ou mais tarde o fato se repetiria. Ela tomara sua deciso conscientemente e no estava arrependida. Mas no era fcil...
Ouviu um assobio, seguido pelos latidos de Teddy. Penn estava descendo pela colina, com uma corrente em uma das mos.
	Fui pedir uma corrente emprestada. Enquanto a rvore estiver bloqueando o caminho, no poderemos ir a parte alguma.
	E temos de ir a algum lugar?
Ele sorriu e lhe deu um beijo rpido.
	No se lembra? Eu lhe disse que teria uma conversa com Marcus hoje.
	Correto  ela confirmou, o corao partido.  Quer v-lo e dizer que eu no significo nada para voc. Que nunca signifiquei nada...
O choque que transpareceu no rosto de Penn foi igual ao de dez anos atrs, quando ela sugerira um futuro que ele no queria.
Ela sabia. Sempre soubera que Penn nunca lhe prometera nada. Tentara se convencer de que poderia viver sem promessas, e se conseguira ou no, no vinha mais ao caso. O que quer que dissesse o faria pensar em exigncias, e o empurraria para longe.
Por isso, ela deu meia-volta e retornou para o chal.
	Droga, Kaitlyn! Estou cansado disso!
	Cansado de qu, Penn Caldwell? De si mesmo? Poupe-se, ento. No  preciso que repita o que pensa de mim. Eu ainda me lembro de tudo de que voc me acusou, h dez anos.
Penn empalideceu.
Toda a sua raiva desapareceu. No sentia satisfao em feri-lo. Pelo contrrio. Sentia-se fraca e vazia.
	V em frente e suma como fez da outra vez.
	Eu no vou para lugar nenhum, Kaitlyn.  ele respondeu com convico.  Consegui comprar a propriedade Delaney.
Eles concordaram com a minha proposta ontem.
A informao deveria ter lhe dado um certo alvio. Deveria ter comeado a fazer clculos de quantos meses seriam necessrios at Penn conseguir construir a casa. Mas nada disso aconteceu.
	Fico contente por voc.  Ela esboou um breve sorriso.
 Mas para mim no adianta, Penn. No dar certo. Eu quero promessas e voc no pode faz-las.
Agora ele vai partir. Agora ele vai aproveitar e me deixar, Kaitlyn pensou.
Em vez disso, Penn falou muito calmo:
	Que tipo de promessas, Kaitlyn?
Ela se sentiu prxima ao histerismo.
	Responda!  ele a sacudiu.  Quer abrir esses seus lindos olhos verdes, uma vez, e encarar as coisas como realmente so e no como voc pensa que deveriam ser?
Ela o fitou, os olhos muito abertos.
	Por que diabos voc acha que eu quis tanto aquele pedao de terra? Posso construir casas em qualquer cidade. No precisava escolher Springhill
	No sei.
O rosto de Penn estava tenso, contrado, parecia talhado em pedra.
	Porque assim que te vi, soube o que vinha faltando em minha vida h dez anos.
Kaitlyn estava perplexa demais para se mover ou para respirar. No fosse Penn apertar seus ombros ela provavelmente teria desmaiado.
	Vim assistir ao casamento de Angela como se estivesse sendo empurrado de volta para c. Chame de saudade, se quiser. 
No tinha nenhum plano em mente. Mas no momento em que te vi, na igreja, soube que no era apenas a garota de quem eu gostei. Voc era...
Ele a soltou. Kaitlyn se sentou no sof e suspirou.  Poderia ter dito alguma coisa.
	No. Eu no podia. Ser que no entende, Kaitlyn? Voc no teria acreditado que eu estava sendo sincero. Eu te usei h dez anos. No foi de propsito. Juro que no. Mas isso no me torna menos culpado, nem apaga o que aconteceu. Eu te abandonei cruelmente. Destrui a confiana que voc depositara em mim.
No se tratava de um pedido de desculpa. O que Penn estava dizendo era a pura e dolorosa verdade. Kaitlyn levou ambas as mos ao rosto; suas faces queimavam.
	Eu sabia que precisaria de pacincia para reconquistar sua confiana. Mais cedo ou mais tarde voc se convenceria de que eu voltara para ficar. Era por essa razo que eu queria tanto a propriedade Delaney.
Ele respirou fundo e continuou:
	Calculei que at que eu construsse uma meia dzia de casas, voc j estaria me vendo de forma diferente, mas ontem a noite eu no consegui pensar. No queria mais esperar, no queria mais ser paciente. Ento disse a mim mesmo que voc entenderia, que perceberia que eu havia mudado. Depois que a vi na chuva, desesperada, achei que aquela havia sido sua forma de me dizer que eu fora perdoado.
	Tudo o que eu sabia era que precisava de voc, que o queria. No queria pensar no que poderia acontecer depois.
A confisso de Kaitlyn o desencorajou.
	E ento reabrimos as velhas feridas e agora teremos de esperar que tornem a cicatrizar.
Ele se virou para sair.
Kaitlyn saltou do sof e agarrou-o pelo brao.
	Talvez aquelas feridas nunca tenham cicatrizado totalmente, mas agora temos uma nova oportunidade de nos curar.
Os braos de Penn a circundaram lentamente. Kaitlyn sorriu, embora seus lbios tremessem. Seu rosto, ento, buscou refgio no peito dele.
Ficaram assim por um longo tempo.
Quando Penn tornou a falar, sua voz soou to baixa que ela mal conseguiu entend-lo.
	Quando se tem vinte anos no  muito comum que se mantenha um relacionamento de amizade com os pais. No meu caso, Kitten, eu no perdi apenas meus pais naquele acidente, mas meus melhores amigos. Senti-me culpado por ter sobrevivido e eles no. Achei que poderia t-los salvo, se tivesse sido mais esperto.
	Mas seria impossvel. Ningum poderia ter evitado o acidente.
	A culpa no  lgica, Kiten. E eu tinha uma srie de razes para me sentir culpado. Andava brigando com meu pai porque no estava querendo continuar os estudos. Insistia que queria um tempo para me decidir sobre o meu futuro. Quando fiquei s e livre para escolher, senti como se o tivesse matado.
Um grande alvio brotou no corao de Kaitlyn. Ela sempre se culpara por Penn ter interrompido seus estudos. Agora sabia que no fora por sua causa.
	At um ms aps o acidente, eu me senti entorpecido. Sofria a cada minuto. Quando tive condies de voltar a raciocinar, disse a mim mesmo que nunca mais gostaria de ningum. Assim no sofreria mais e no seria o causador do sofrimento de outros. 
Uma teoria muito simples.
Kaitlyn o abraou com fora.
	Mas havia voc e eu precisava de seu calor, de sua fora, de sua beleza. Porm, quando disse aquelas palavras...
	O que foi que eu disse?  ela sussurrou.  Eu no me lembro. Juro que no me lembro.
Nada mais pode nos separar agora  ele repetiu.
	Oh, Penn.
	Naquele instante eu percebi que estava acontecendo tudo como antes, apesar de minha determinao. Eu estava amando-a e me expondo ao sofrimento outra vez. Tive medo. Se perder os pais era to horrvel, como no seria perder a mulher amada, ou um filho?
	Ento no foi por minha causa?
	No, querida. Foi medo. E por causa desse medo eu perdi a coisa mais linda que me restara na vida.
Ela se aconchegou ainda mais a seu peito.
	Por algum tempo, tentei me convencer que nada importava a no ser o presente. De que adiantaria se preocupar com o amanh? Demorou, mas eu superei essa fase. Eventualmente comecei a dar minha contribuio ao mundo, ao invs de no pedir nada e de no dar nada. Mas foi apenas no momento em que te vi na igreja, que descobri que tinha deixado algo inacabado aqui. Kaitlyn, se voc me aceitar de volta, e deixar que eu lhe mostre o quanto significa para mim... Nunca mais a magoarei.
	Sim, voc me magoar e eu tambm o magoarei, porque o amor s vezes faz sofrer. A diferena ser que no tentaremos esconder essa dor e no fingiremos que no  importante.
Penn a beijou longa e apaixonadamente.
	Voc andava to ansioso  ela murmurou.  Pensei que estivesse querendo partir.
Ele balanou a cabea.
	No. O que eu queria era acertar nossa situao.
	Mas no disse nada quando soube que eu havia rompido meu noivado com Marcus  ela protestou.  E quase partiu meu corao quando parabenizou-o por ter se livrado de se casar comigo.
	Mas  claro!  Penn a afastou ligeiramente, o bom humor voltando  sua voz e aos seus olhos.  Casar-se com voc teria sido um destino pior do que a morte.
Kaitlyn ficou estarrecida. Casamento. A nica coisa que Penn no mencionara. No ficaria aborrecida. O importante era que Penn a amava.
	Para o Marcus  ele completou.  Sabe, Kitten, eu nunca acreditei naquele noivado. Se voc estivesse realmente apaixonada por Marcus, teria se casado ou ao menos dormido com ele h muito tempo. Mas se estava disposta a esperar oito meses... Eu no poderia esperar tanto. Quer se casar comigo? Ela teve um acesso de tosse.
	A resposta no foi muito lisonjeira.
	Sim, eu quero me casar com voc.
A luz que brilhou nos olhos de Penn a fez pensar que estivesse no paraso. Mas no teria sido Penn, se ele houvesse dito algo potico.
  Pena que no tenhamos decidido antes. Poderamos ter aproveitado a decorao da igreja, o bolo, tudo o que Laura cancelou na ltima hora.
	No teramos conseguido o principal: a licena.
	Quer apostar?
	Espere a. Eu te vi saindo do cartrio um dia destes.
Ele riu.

	No se preocupe. Eu no a obrigaria a se casar s pressas.
Ter todo o direito de ser uma noiva em grande estilo. Um detalhe, porm. No sou como Marcus. No estou disposto a esperar muito.
Caso o casamento no possa acontecer logo, farei tudo para persuadi-la a vir morar comigo.
	Onde?  Kaitlyn perguntou, lembrando-se da cabana danificada.
	Construirei uma casa para ns. E seremos muito felizes.
Quer uma pequena demonstrao.
Quando Penn a soltou, Kaitlyn se sentiu tonta.
	Acho que no vou querer um casamento grandioso.
	Esse  o problema. Nenhum de ns quer esperar, seja o casamento simples ou luxuoso. O que suas clientes iro dizer, j pensou?
	Aquelas que o conhecem entendero.  Ela se lembrou do que Penn dissera sobre Sabrina e Karl.  Voc estava certo.
 o casamento que conta, no a cerimnia. No quero ficar me preocupando com detalhes. Quero aproveitar cada instante do meu prprio casamento.
	Voltaremos a falar sobre o assunto mais tarde.
Kaitlyn concordou com a sugesto, mas no acreditava que fosse mudar de ideia. Prepararia seu casamento com objetividade, e sem despesas astronmicas. Muitas clientes at poderiam vir a gostar da ideia.
Mas haveria tempo suficiente para se pensar nisso mais tarde, como Penn dissera. O importante, no momento, era dizer a ele, com cada clula de seu corpo, o quanto o amava.

EPLOGO

S mais uma  Jill prometeu, dirigindo-se a Audrey para que ela a ajudasse a ajeitar o vu de Kaitlyn.
Audrey se atrapalhou com o tule. Suas mos tremiam. Seria devido ao nervosismo tpico das mes das noivas? Ou algo mais?
	Perfeito!  aprovou Jill e comeou a reunir as damas de honra para uma foto em conjunto.
Mas Kaitlyn no a ouviu.
	O que foi, mame?
Audrey tentou sorrir, mas havia lgrimas em seus olhos.
	Eu no pretendia lhe dizer.  uma bobagem. Mas eu acabei de me lembrar de sua touquinha de batizado. Oh, Kaitlyn, como pude esquec-la?
Touquinha? Por um instante Kaitlyn pensou que sua me havia perdido o juzo. Ento se lembrou do delicado linho entremeado de rendas. Sua me o carregara como leno no dia de seu casamento. Quando Kaitlyn nasceu, o leno foi acrescentado de uma fita e alguns ajustes e se transformou em uma touca. Agora, no dia de seu casamento, Kaitlyn deveria voltar a us-lo novamente como leno.
	Era o "algo de velho" que eu queria que voc usasse Audrey concluiu.
Kaitlyn a abraou com ternura.
	Eu estou usando "algo de velho". O seu vestido. No seja supersticiosa, mame. No fique triste no dia do meu casamento por causa de um leno esquecido.
 Eu sei, querida. Nada impedir que seu casamento d certo. Voc e Penn merecem ser felizes.
A me a beijou e saiu da ante-sala, nos fundos da igreja de St. Matthew. Foi a vez de Kaitlyn de sentir vontade de chorar. Poderia ser uma mera superstio, mas o leno era importante para ela. Fora presente de seu pai, o ltimo antes de Audrey tornar-se sua esposa. E como ele no estava ali, naquele dia, para conduzir Kaitlyn ao altar...
Os sinos indicaram a hora no momento em que Jill tirou a ltima fotografia.
Os acordes de um violino flutuaram pelo ar, e a congregao se agitou, ansiosa, como sempre acontecia.
	Acho que est na hora  Kaitlyn engoliu em seco.
Passos apressados a detiveram.
	No entre ainda. Penn desapareceu  informou um dos padrinhos.
Kaitlyn sentiu o sangue congelar em suas veias.
	Ele esteve aqui?
	Sim.
No era possvel. Penn no a abandonaria na porta da igreja.
	Penn j apareceu?  aproximou-se, nervoso, outro padrinho.
	No posso acreditar que ele tenha feito isso comigo! Kaitlyn murmurou, quase para si mesma.
	Nem deveria  disse uma voz calma s suas costas.
Kaitlyn sentiu que renascia ao ver Penn, lindo, alto e elegante em seu fraque preto. Apenas o cabelo despenteado indicava que nem tudo estava em ordem.
	Onde voc esteve?
Ele retirou do bolso um delicado tecido de linho branco entremeado de rendas.
	Minha me te fez atravessar a cidade para buscar minha touquinha?
	No. Para ser franco, ela no sabe que eu fui busc-la. S que quando me disse, achei que voc desejaria carreg-la.
Kaitlyn sentiu os olhos marejarem.
	Seria uma pena quebrar a tradio, no acha? E nosso beb?
Com que touquinha o batizaramos?  Ele beijou-lhe a pontinha do nariz.  Encontre-me no altar daqui a dois minutos.
 Posso confiar que no se perder pelo caminho?
Ele se voltou e sorriu. E estava no altar, plido de emoo, quando Kaitlyn comeou a entrar na igreja ao som da marcha nupcial.


FIM
